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Das boas e más ações

2017-10-21 01:30:00

Digno de preocupação um jovem que não tenha esperanças; também digno de preocupação um velho que as conserve.


Acostumado a zombar dos outros, “tirar onda” da cara dos colegas – perder amigos para não desperdiçar a piada –, geralmente quando fala sério quase ninguém acredita: fazem pouco até!


Dia desses, por uma circunstância do destino (mero acidente de ocasião), aqui no meu trabalho fiz uma “bondade” com uma colega – mas logo descobri, quase sem acreditar, que as “boas ações” estão fora de moda. Ela se espantou: “— Tem certeza que vai fazer isso?”; e mesmo ao ouvir a afirmativa ainda ponderou: “— Seria bom você pensar melhor!”. A minha inesperada “boa atitude” se espalhou rapidamente pelos andares do prédio da repartição, e durante algum tempo vi colegas de trabalho me olharem assustados; incrédulos, alguns vieram me consultar sobre a veracidade do fato; então, aproveitando a triste fama de uma simples boa ação, tascava-lhes uma frase meio piegas, falsa como promessa de político: “— Feliz daquele que tem oportunidade de realizar uma boa ação!”, e saía rapidamente para (com meu jeito sonso) rir sozinho, mas quase chorando por dentro.

 
Desde essa época, e só de sacanagem – para ver a cara de espanto dos colegas – tenho procurado de quando em vez fazer boas ações.

E por falar em repartição – que, como todo aglomerado humano, é um laboratório perfeito pra Deus e/ou (por que não?) pro Diabo realizarem seus experimentos –, certa vez, ainda na década de 1990, surgiu e se propagou ligeiro (como toda notícia ruim) o boato de que alguns de nós seríamos devolvidos para nossos órgãos de origem. E para escapar de tal “degola” o funcionário teria que conseguir uma “função gratificada”, que era uma espécie de pequena chefia. Os que já possuíam tal “honrosa comenda” desfilavam sorrisos, sem sequer se importarem com os outros (isto é: nós, a grande maioria, que não tínhamos). Um superior bondoso teve a ideia, baseado no famoso “jeitinho brasileiro”, de sugerir que quem fosse da “casa” emprestasse (de fachada apenas, pois continuaria recebendo normalmente seus dividendos das mãos do colega no dia do pagamento); a ideia se mostrou maravilhosa, mas – novamente – apenas para nós, os ameaçados, pois logo em seguida revelou sua dupla face: nossos melhores amigos nos viraram a cara, faziam verdadeiros malabarismos para não cruzarem conosco, nos evitavam como se fôssemos leprosos. Foi quando surgiu – para perplexidades das nossas ingênuas pretensões frustradas – a figura mais que detestada de um colega: sujeito mal falado, evitado até, com sua língua ferina a bisbilhotar fofocas, dentre outros males do serviço público; pois bem, este terrível servidor foi o único a nos oferecer ajuda: disponibilizou sua “gratificação” para quem quisesse usufruir.


Desde então tenho relativizado bastante as gentilezas e mau humores, os sorrisos e raivas, enfim – as boas e más ações humanas.


Adriano Nogueira

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