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O Circo

2017-07-29 01:30:00

O circo passou pela cidade, deixando saudades, vários buracos de estacas da empanada, ossos de gatos, a areia fina do picadeiro e alguns molambos pendurados nos muçambês. Verdade também que deixou dívidas no comércio local, algumas mulheres barrigudas e a incerteza da volta um pouco antes das festas do padroeiro.


Da última vez ficaram lembranças tristes; nunca se tinha visto a Companhia em tal situação: dos dois caminhões antigos só restava um, o jipe de propaganda tinha de ser empurrado, a empanada lembrava mais um acampamento de ciganos, dos animais sobreviveram apenas um macaco esquelético e uma cobra jiboia quase imóvel. Os palhaços continuavam fazendo rir muito mais pelos seus aspectos ruins, suas caretas arremedando gargalhadas, onde somente as bocas riam, os olhos não. Até as dançarinas e trapezistas estavam magras e só despertavam prazer em rapazes muito novos e em velhos viúvos.


Mas nem sempre foi assim; no início do século, quando a Companhia apareceu pelas primeiras vezes, era recebida pelo prefeito, juiz de paz e delegado, que entregavam ao proprietário do circo a chave da cidade e ofereciam um banquete com bois e porcos para os artistas.


Depois da recepção começava a armação de empanadas, arquibancadas e cercas de proteção. Os moradores da cidade se revezavam ao redor, fazendo comentários e perguntas curiosas, identificando logo palhaços, trapezistas, malabaristas, arremessadores de faca e principalmente as dançarinas, que bailavam aos olhos da multidão. Os adultos mantinham-se à distância, com medo de terem que ajudar; já os menores ficavam à vontade e logo se confundiam com as crianças do circo, sujas, de pé no chão, ajudando e atrapalhando muito.


Mais divertida que o espetáculo tão esperado era a propaganda vespertina, quando o homem das pernas de pau, dois palhaços coloridos e uma dançarina seminua saíam em cima de um jipe aberto, instigando a população, jogando bombons para a multidão de crianças que os acompanhava e gritando os mais conhecidos refrães do mundo do circo. “E o palhaço o que é?”... “Ladrão de muié”, respondiam as muitas vozinhas eufóricas e roucas. Aos mais gritantes eram ofertados ingressos para a exibição da noite, aos outros sobravam bombons, as pernas da dançarina e as pedras do caminho.


Durante os espetáculos o apresentador ia anunciando uma a uma as atrações: as dançarinas formosas, os trapezistas voadores, os palhaços mais engraçados do mundo, os mágicos que serravam mulheres ao meio, os arremessadores de facas incendiárias e as atrações extraordinárias, como o engolidor de fogo, o homem que comia vidros, a mulher que dormia com uma cobra, o homem-bala disparado por um canhão, o indivíduo que era enterrado no começo do espetáculo e desenterrado no final, após a mais esperada atração da noite: a comédia, na qual todos os palhaços armavam um pequeno enredo e nos matavam de rir, fazendo referências às figuras conhecidas da cidade e contando piadas mais picantes. Terminava já pela madrugada, as luzes iam se apagando, uma música era tocada e a multidão se dispersava pelas ruas e becos, falando alto e repetindo os motes dos palhaços.


O circo era alegria desde mesmo antes de existirem rádio e televisão, quando os únicos divertimentos da pequena cidade eram ir à missa, a uma tertúlia ou dar voltas no coreto da praça antes que os lampiões a gás fossem apagados. Também sempre trouxe dores de cabeça aos habitantes, várias foram as moças que ficaram grávidas de algum malabarista, homem-bala ou mesmo do palhaço. Muitos foram os jovens mais sonhadores que fugiram com o circo para passar o ano todo naquela festa, adolescentes que sonhavam em ser dançarinas e cobiçadas por todos. Vez por outra também ficava alguma dançarina ou trapezista, menos sonhadora e mais prática, casada com algum comerciante apaixonado.


Mas na última vez causou mais espanto que alegria, mais pena que sorrisos. O velho trapezista, ao tomar banho no rio entre os homens da cidade, se mostrou sem esperanças, e dizem que ele chorou algumas lágrimas disfarçadas em um mergulho.


E além da saudade, dos buracos de estacas da empanada, dos ossos de gatos, da areia do picadeiro e dos molambos nos muçambês, ficaram apenas alguns gritos de crianças de outros tempos, que vêm não se sabe de onde, assustando aos que passam a altas horas da noite no terreno baldio onde o circo não mais está; ficaram também algumas lágrimas nos meus olhos e, em todos, uma leve dúvida quanto à sua volta um pouco antes da próxima festa do padroeiro.

Adriano Nogueira

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