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VERSÃO IMPRESSA

Mangangá

2017-03-04 01:30:00

A lembrança é este besouro mangangá, que de repente nos assusta com seu zunido grosso quando passamos por qualquer caminho. Crianças, tentávamos descobrir de onde vinha o tal zumbido forte — se da boquinha quase invisível, se das asas fortes que mais pareciam feitas de alumínio: ele sempre nos pegava de surpresa num voo rasante, para escapulir logo em seguida na direção das cercas e, depois de várias investidas, acertar o buraco na estaca e sumir no oco da madeira. Perscrutávamos um minuto, vacilantes: tentando adivinhar a direção seguida, mas com o tempo aprendemos a dar leves toques na madeira, descobrindo pelo som a parte ocada, em seguida aprumávamos um vidrinho de remédio vazio ou mesmo uma caixa de fósforos (mas somente em último caso, pois esta não nos permitia enxergar o besouro em desespero depois de preso); após colocarmos cuidadosamente o frasco no buraquinho (quando um de nós assumia a tarefa, geralmente o maior, pois era a tarefa mais difícil, meticulosa: que precisava de firmeza nas mãos, paciência e sangue frio para ver o mangangá passando a poucos centímetros dos dedos), dávamos leves golpes de pedras em toda a extensão da estaca, acompanhando com os ouvidos a trajetória, os avanços e recuos do voadorzinho acuado — levávamos às vezes manhãs inteiras desentocando um deles (e os menores eram os mais trabalhosos, coisa que não entendíamos, porém aceitávamos como mais uma verdade entre as tantas que íamos, aos poucos, descobrindo: e as tardes eram gastas nas análises, questionamentos e hipóteses a respeito do nosso prisioneiro: das simples elucubrações dos coleguinhas mais novos às mais complexas especulações dos mais velhos (e ali fazíamos os nossos primeiros embates mentais, pois até então apenas havíamos usado a força física, nas brigas e partidas de futebol): quem tinha mais criatividade conquistava o respeito e a admiração dos outros, e não raramente os papéis se invertiam: aqueles mais fortes nas arengas e nas brincadeiras tornavam-se fracotes nesse jogo sutil de hipóteses e divagações. Nós, os mais novos, aproveitávamos essa arena livre para adquirir respeito: nem sempre conseguíamos, e não raras vezes exagerávamos nas elucubrações e fantasias e éramos saudados com sonoras vaias, mangações que persistiam a tarde inteira e até pelos dias seguintes (de acordo com o absurdo das afirmações). As vaias e risadas quase sempre eram acompanhadas de tapas e cutucões. De forma que aprendíamos também a dosar nossa imaginação para não cair no ridículo (não conto as vezes em que tive que me trancar em casa por semanas, acuado pelas brincadeiras dos amiguinhos por causa de uma opinião mais exagerada).


A caça ao besouro não era brincadeira constante, pois dependíamos da presença dele, que sempre nos aparecia de surpresa, o que não era frequente: portanto, assim como as lembranças, não podíamos nos prevenir, mas guardávamos sempre um vidrinho vazio no bolso do calção.


Quem dera serem eles (e elas, as recordações) como o feio cavalo-do-cão, que constantemente nos assaltava pelos terreiros, com suas asas compridas e seu voo desajeitado: insultava-nos corajosamente, até ser abatido e esquartejado impiedosamente por todos nós: e, não raras vezes, o despedaçávamos com uma raiva sincera, desmedida, que ele inexplicavelmente despertava em nós… com seu corpo negro, magro, peludo como deve ser a figura do satanás.


Mas o que ele nunca despertava — apesar da estranheza de suas formas e do medo que nos causava — era a nossa imaginação.


Adriano Nogueira

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