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VERSÃO IMPRESSA

2019: um início conturbado

00:00 | 06/01/2019

Se 2018 já havia sido agitado, sob muitos aspectos para a cobertura jornalística, 2019 não começa com calmaria. Na semana que passou, grande parte do noticiário cearense foi tomada pelos ataques criminosos que incendiaram ônibus, deixaram ruas alencarinas desertas em dias úteis, impuseram um clima de medo à população e forçaram uma conversação entre os governos. Em suma, pautas por todos os lados.

 

O POVO, desde o início dos ataques, investe na cobertura principalmente online, no portal e nas redes sociais, embora o assunto inevitavelmente tenha sido manchete do jornal impresso da sexta-feira passada, dia em que escrevo esta coluna. O assunto nas plataformas digitais, em sua cobertura online, é o que vai mais vai interessar à população ao longo do dia, nestes momentos caóticos em que se precisa de informações imediatas. O leitor necessita saber como está a circulação da frota do transporte público, tem de ser informado de ônibus e prédios incendiados e das negociações políticas que se desdobram a partir dessa onda de violência.

 

E é na rua que se apura isso. Como nos ensinou, e nos relembra a cada entrevista, Ricardo Kotscho, um dos mais notáveis repórteres brasileiros, "lugar de repórter é na rua, não na redação". Se o jornalismo já é de serviço, por sua essência, nestas situações ele deve investir mais ainda em informar. E, mediador de conflitos que é, por ser um intermédio entre a sociedade e os poderes, deve cobrar soluções.

 

Ruptura e diálogo

Na esteira das cobranças, o jornalismo e os jornais precisam ficar atentos para não emitir opiniões quando não for apropriado nem cair nas ciladas da escolha vocabular malfeita ou mal sinalizada. A capa da edição de quarta-feira, 2, incomodou os leitores do O POVO. Com os dizeres "O Brasil da ruptura", e a foto do presidente eleito Jair Bolsonaro, e "O Ceará do diálogo", e a foto do governador do Ceará Camilo Santana, a manchete exibia a posse dos dois gestores.

 

As frases usavam palavras proferidas nos discursos dos dois governantes - ruptura e diálogo. Em contextos diferentes, é verdade. No primeiro caso, Bolsonaro falava em ruptura com "práticas que se mostram nefastas". No segundo, Camilo declarava que prega "o diálogo sempre como melhor caminho". Ambas as frases acompanhavam as fotos na capa do jornal. É claro, no entanto, que o destaque principal se dava para a manchete.

Começou a correr pelos grupos de aplicativos de mensagens o encaminhamento de uma nota pedindo o "boicote" ao jornal. O POVO, segundo a mensagem, havia deixado a "parcialidade e a isenção para tornar-se partidário, mostrando sempre apenas um lado dos fatos e emitindo opinião sempre favorável à esquerda".

 

Alguns leitores que entraram em contato se queixaram da imagem que o jornal transmitiu ao colocar Bolsonaro como "o presidente da ruptura", que, a partir de então, teria rompido com a região; e Camilo como o "governador do diálogo", o conciliador, que, este sim, estaria do lado supostamente certo. Um conjunto claramente antagonista, a direita má e a esquerda boa.

 

Faltaram aspas nos termos, faltaram referências explícitas ao discurso de ambos, faltaram contextualizações que não associassem as expressões a uma ideologia do veículo. Ora, o jornal não se posiciona politicamente, por mais que defenda bandeiras regionais independentemente de partidos. Há espaços para esse posicionamento, do editorial aos artigos. Permitir duas frases dessas, em contextos deslocados e num cenário político conturbado, é mais do que ousado. É arriscado para a credibilidade.

 

É claro, pois, que não podemos saber quais interpretações nosso texto terá. Em vários casos, é algo alheio ao que escrevemos ou imaginamos. Em muitos outros, porém, podemos agir com a experiência e a maturidade de 91 anos. A propósito, celebrados nesta segunda.

 

Mais um

A convite da Presidência do O POVO, renovo, a partir de amanhã, aniversário desta Casa, o mandato de Ombudsman. Em um ano com novos desafios (que palavra para nos acompanhar!), que tenhamos serenidade em todo o processo de reflexão acerca do nosso fazer cotidiano. O jornalismo se aperfeiçoa diante das tribulações.

 

Daniela Nogueira