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A favor ou contra o governo eleito?

00:00 | 09/12/2018

Têm sido recorrentes, especialmente neste ano, as críticas de que determinados veículos de comunicação assumiram determinado lado político em suas matérias e em sua cobertura jornalística no geral. Essas queixas, vindas dos leitores, foram bem mais intensas no período eleitoral, momento em que as paixões estão sempre à tona, mas boa parte delas se estende até os tempos atuais, após a eleição de um novo governo, oposição ao atual.

 

No O POVO, também tem sido constante. Por semana, são vários os contatos de leitores aborrecidos com a frequência de artigos no jornal contrários ao governo Bolsonaro, principalmente escritos por jornalistas da Casa. Alguns criticam o teor dos artigos, outros se queixam das colunas - ambos espaços opinativos, é verdade. A crítica dos leitores é que o jornal não tem se mantido isento, imparcial e neutro na avaliação do governo eleito.

 

De início, é preciso deixar claro que a responsabilidade dos assuntos emitidos em artigos e colunas é do jornalista que assina aquele texto. O jornal, como instituição, se manifesta no editorial - é nesse espaço em que o veículo deve emitir sua voz acerca de determinado assunto da conjuntura. Os espaços estão e devem ser delimitados, mas é preciso uma série de cuidados.

 

Primeiro, o jornalista que assina o texto é responsável pelo que escreve e usa de gêneros jornalísticos opinativos para isso (como artigos e colunas, por exemplo). É o espaço adequado para a manifestação da opinião. A matéria, por ser um gênero mais objetivo, não suporta a opinião expressa.

 

Equilíbrio

 

No entanto, quando há um exagero na veiculação de apenas um determinado ponto de vista, precisamos repensar se temos agido com equilíbrio - aquele princípio tão discutido e que serve de mote sempre para a cobertura política.

 

É inegável que as opiniões publicadas a favor do governo eleito são consideravelmente menores, em quantidade, do que as opiniões contrárias. 

 

Basta uma olhada pelos espaços opinativos do jornal por alguns dias para que essa percepção fique clara. Na semana que passou, atendi a alguns leitores que reclamaram. Um se disse angustiado com o que tem lido no jornal. "Alguns jornalistas daí não perdoam os vitoriosos da última eleição e ficam massacrando com virulência. A democracia não é feita desse jeito. A  democracia é divergência, mas é bom senso", comentou.

 

Outro afirmou que alguns jornalistas fazem "militância constante" contra o presidente eleito. Já recebi mensagem de outro leitor questionando por que O POVO não via "agenda positiva" em relação ao presidente eleito.

 

Entendo que se trata de uma opinião e, como tal, merece respeito. Pode-se discordar dela, mas não há como obrigar alguém a modificá-la ou pensar diferente, sem argumentos coerentes ou uma boa discussão. É claro que xingamentos, insultos e ofensas em geral não devem ser admitidos nos textos opinativos publicados - sejam de jornalistas da Casa, sejam de colaboradores avulsos. Esse é um dos critérios para publicação de artigos e deve ser adotado a todos. Além de não contribuir, de forma alguma para o debate, desqualifica qualquer argumentação e enfraquece a análise posta.

 

Contudo, é necessário que haja um balanceamento na divulgação dessas opiniões. Senão, o jornal corre um sério risco de se consolidar com a pecha de ser partidário. E isso não é bom para veículo nenhum que não tenha escolhido assumir um posicionamento.

 

Em algumas situações, percebe-se uma preocupação constante do O POVO em manter esse equilíbrio evidente e dar ao leitor opções de leitura, quer por suas preferências ideológicas, quer por seu deleite. Publicar as colunas dos jornalistas Valdemar Menezes e Fábio Campos na mesma página, ou lado a lado, era um exemplo nítido de que o leitor tinha à disposição duas leituras, muitas vezes sobre o mesmo assunto, sob óticas divergentes, mas com argumentos embasados, sólidos e sensatos. O leitor, liberal ou conservador, até discordaria de um dos dois, mas teria ali a alternativa de argumentar a favor de um e, consequentemente, contra o outro.

 

Isso precisa ser mais bem trabalhado. E o que fazer se não tivermos gente com esse posicionamento? Recorrer a fontes que saibamos que pensem assim. Não podemos é colocar em risco nossa cobertura, tão planejada e cuidadosamente executada, em nome de uma série de opiniões que pendem para um dos lados. 

 

Por Daniela Nogueira