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VERSÃO IMPRESSA

Roger Waters em Fortaleza e o jornalismo vulnerável

00:00 | 04/11/2018

Nos tempos atuais, em que os jornais lutam a todo instante para fortalecer a credibilidade na divulgação das informações, cada etapa do processo de apuração deve ser cuidadosa. Na semana que passou, um episódio local, porque simples e evitável, mostrou que os jornalistas dos veículos de comunicação precisam, mais do que nunca, praticar um dos ensinamentos basilares da profissão - o desconfiar.

 

No dia 24 de outubro, O POVO publicou, no portal, que o cantor inglês Roger Waters, ex-líder da lendária banda Pink Floyd, viria a Fortaleza. "Festival Concreto anuncia vinda de Roger Waters a Fortaleza" foi o título da notícia também publicada no jornal impresso do dia seguinte, 25/10. De acordo com a matéria, não havia dia nem hora certos. Segundo os editores do Vida&Arte, responsáveis pela edição do material, a informação partiu da organização do Festival, que ocorre de 16 a 24 deste mês. O cantor estava, então, em turnê pelo Brasil e suas apresentações foram marcadas por protestos contra o então candidato à Presidência, agora eleito.

 

É claro que houve um furor dos fãs cearenses. Nas redes sociais, um frisson começou a se formar diante da notícia - também divulgada pelo jornal Diário do Nordeste. Mas Roger Waters não viria. Nem para show nem para qualquer participação no Festival. E a organização parecia saber disso ao divulgar a notícia. Os jornais receberam a informação, não apuraram como deveriam, não ligaram o "desconfiômetro" e repassaram a notícia. A história foi desmentida na última quarta - pela organização do evento.

 

Pegadinha?

 

Em nota, o Festival informou que a participação do músico não seria presencial, "mas sua arte, seu grito, sua resistência estarão aqui em Fortaleza" (sic). A pseudoparticipação de Roger dar-se-á por meio de um vídeo a ser exibido no Cineteatro São Luiz. O Festival comunicou que a iniciativa foi "uma ação-protesto" do encontro.

 

O evento tem todo o direito de fazer suas manifestações, mas o jornalismo não pode se submeter ao desserviço quando não checa as informações que recebe. Era o que deveria ter sido feito ali. Buscar todas as formas possíveis de verificação da informação até divulgar que a notícia havia sido apurada e era verídica.

 

Há alguns dias, conversei com um leitor, em outra situação, que se disse "consternado" porque, em alguns casos, tinha de ler os comentários das matérias para que pudesse ser mais bem informado. Sentimento parecido tive ao ler comentários acerca desse assunto, em que outro leitor apontava: "Impossível. Segundo o site oficial do Waters, ele vai estar, no intervalo de 16 a 24 de novembro, fazendo shows em Lima, Bogotá e San Jose".

 

A agenda está no site oficial do cantor. O músico, que encerraria a turnê no Brasil no fim de outubro, seguia para outros países próximos. Seria, de fato, meio difícil de imaginar que, saindo de Buenos Aires e Santiago, com destino a Lima, ele retornasse ao Brasil para mais uma apresentação.

 

Vi muitos comentários sobre o tema, tratando o caso como uma "pegadinha" ou mais uma "gracinha". Isso foi desinformação. Foi mais um capítulo para mostrar como estamos vulneráveis a propagar o que não checamos bem. A chancela do "deu no jornal" ainda é relevante para um público que insiste em continuar acreditando na imprensa responsável e comprometida com a verdade.

 

Para lembrar: no ano de 2006, os dois principais jornais cearenses também foram alvo, com destaque no caderno de cultura, de outro episódio semelhante - o caso do "famoso artista plástico japonês" Souzousareta Geijutsuka, que viria expor sua arte no Dragão do Mar. Foi capa, deu entrevista, rendeu várias matérias. O artista era, na verdade, um paulista radicado no Ceará e se chamava Yuri Firmeza. Enganou toda a imprensa cearense, que também, à época, não havia se esforçado muito para verificar a informação.

 

O jornalista e o jornalismo devem se municiar de todas as estratégias para não serem tomados por armadilhas do tipo. Ao não questionar, o discurso jornalístico legitima a informação. Consequentemente, o veículo que publica chancela a notícia. Para continuar a ser relevante, o jornalismo precisa aprender com os erros já cometidos, não ficar refém de tudo o que recebe e explorar a investigação.