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O que aprendemos com as "fake news"

00:00 | 18/11/2018

O ex-presidenciável Ciro Gomes foi uma das vítimas dos últimos dias. Confundiu um perfil do Twitter, comentou uma declaração que o futuro ministro Paulo Guedes não deu e foi enganado por mais uma notícia falsa (leia em: https://bit.ly/2ON43gk ). Os conteúdos enganosos, tão propalados nas eleições, continuam a existir. Foram temas de discussões há alguns meses, mas existe a impressão de que não aprendemos o suficiente para nos proteger.

 

Um dos grandes temores deste ano, discutido especialmente já no período pré-eleitoral, era saber como enfrentaríamos as "notícias falsas" - tomo aqui o termo mais geral, mesmo sabendo que há quem prefira utilizar "notícias fraudulentas", visto que a expressão nasce a partir de uma fraude, e há quem lembre que há uma contradição: ora, se não é notícia, é falsa; se é falsa, não é notícia. Há razão em ambos os argumentos. Volto à discussão inicial: passada a eleição, o que aprendemos com a disseminação de tanta mentira? Ouvi até de alguns jornalistas que a guerra estava perdida, que as mentiras nas redes sociais haviam vencido.

 

É fato que fomos - jornalismo, políticos, sociedade civil em geral - enganados por uma grande quantidade de inverdades. Enquanto veículos de comunicação se desdobravam em criar estratégias de verificação para comprovar as informações que publicavam, máquinas e pessoas dispostas a contribuir para a perturbação do processo iam ao encontro da desinformação. Em determinado momento, pareceu impossível controlar os aplicativos de mensagens e as redes sociais.

 

CredibilidadeA situação era tão devastadora que a certas informações, verídicas, replicávamos: "Será que é verdade?". Desconfiávamos até do que parecia óbvio (no jornalismo nada é tão óbvio). Falhamos todos. As empresas proprietárias das redes sociais não agiram conforme se esperava. Foram lentas no processo de verificação do conteúdo, sem tomar para si a responsabilidade em suas plataformas. A Justiça alertou em relação à velocidade da propagação, mas as ações de prevenção e punição quanto às iniciativas também não foram tão ágeis. A multiplicação dos projetos de lei não significava rapidez no processo de combate à mentira.Algumas empresas de comunicação, como O POVO, deram início a ações que visaram combater a disseminação dessas mentiras e comprovar a veracidade das informações, checando os dados antes da publicação. Um dos pontos positivos que ficaram dessas iniciativas é a discussão que isso gerou, a preocupação que essas ações resultaram na sociedade, que, em parte, passou a dar uma olhada mais cuidadosa nos desmentidos publicados em certos sites, nos títulos e textos de algumas matérias, nas fontes que repassavam as notícias. Houve uma atenção da sociedade para o tema. Isso não pode ser perdido, porque o assunto não se esgotou e porque essas medidas protetivas não chegaram a uma parcela significativa. Não chegaram a alguns, porque falta educação para entender o que é uma informação; não chegaram a outros, porque ainda é difícil combater a mentira por certos aplicativos de mensagem, como o WhatsApp, por exemplo - hoje tido como uma rede social.As notícias falsas - as mentiras - continuam existindo, e, agora que os "robôs" e as agências especializadas sabem a força que têm e o mal que podem causar, a situação pode se tornar pior. É aí que se reforça o papel da mídia ao não esquecer seu papel formador. Se as mentiras puseram a credibilidade de todo um sistema eleitoral em suspeição, o que poderão fazer nos próximos dias, em um novo governo que anuncia e recua, que emite notícias oficiais pelo Twitter?As mentiras sempre existiram. Não surgiram com as eleições e continuaram a existir depois delas. Para manter o jornalismo com o nível de credibilidade que se deseja em tempos de desafio na qualidade da informação, as empresas precisam ouvir mais o leitor usuário, lançar um novo olhar sobre o seu comportamento e investir no combate às notícias fraudulentas. É com essa insistência que se tentará salvar o jornalismo.Por Daniela Nogueira