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VERSÃO IMPRESSA

Do impresso para o digital

00:00 | 25/11/2018

Na região Nordeste, o jornalismo na rede digital tem evoluído tanto que já supera o número de veículos impressos. Foi o que constatou o estudo da segunda edição do Atlas da Notícia, divulgado na semana que passou. Por aqui, o modelo de negócio do jornal impresso tem dado lugar à ascensão do jornalismo online e digital, indica a pesquisa.

 

De acordo com esta nova edição do Atlas da Notícia, dos 109 novos veículos cadastrados no Nordeste, 53 são digitais. O Atlas da Notícia, segundo definição própria, é uma iniciativa para mapear os veículos jornalísticos brasileiros e fornecer dados a pesquisadores, empreendedores e jornalistas. É realizado pelo Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor), em parceria com o Volt Data Lab, e mantido pelo Observatório da Imprensa.

 

A evolução digital não significa um ponto totalmente positivo. Nem sempre. Muitos jornais impressos deixam de existir devido à recessão, ao custo com papel e à perda de anunciantes e migram para o online. O enxugamento das redações, as demissões de jornalistas e o acúmulo de funções pelos profissionais das redações, que precisam se desdobrar para dar conta de várias plataformas, marcam uma parte desse projeto da "transição" do impresso para o online. Isso significa perda da qualidade da informação em um ambiente tomado pela crise. Não é bom para o jornalismo. Não é bom para o leitor, que não receberá uma informação verificada e produzida dentro de um processo ideal.

 

"Jornalismo preguiçoso"

Além disso, a realidade nas cidades do Interior é bem diferente - ainda. O POVO impresso, por exemplo, não circula em todos os 184 municípios cearenses. As informações que o jornal publica chegam bem mais rápido pelas redes sociais e pelo portal do Grupo ao Interior.

 

Proliferam nos municípios interioranos sites e blogs, que, muitas vezes, se dizem de notícias, mas estão vinculados a interesses de políticos da região e profissionais que não são registrados como jornalistas. São, portanto, passíveis de questionamento quanto à credibilidade, ao ideal de imparcialidade e à seleção de notícias veiculadas.

 

Têm, por um lado, um viés positivo, já que são uma fonte de informação. Cumprem uma função social, como todo veículo de comunicação, pois abastecem o município, a região, a população de dados. No entanto, é preciso que seja questionada a qualidade dessas informações. Em muitos casos, são claramente perceptíveis os conflitos de interesse entre a divulgação de informação e a divulgação de um anúncio. É necessário, além disso, que esteja claro para o usuário o que é uma notícia no site e o que é um artigo no blog. Não é fácil, especialmente quando se trata de uma cidade pequena em número de habitantes, e quando desses apenas uma parte é alfabetizada o suficiente para compreender essa diferença. Produzir um conteúdo para a internet significa ter uma responsabilidade sobre ele.

 

Também nessa semana, participei de uma conversa com estudantes de Jornalismo em uma faculdade local. No debate, um deles questionou se eu concordava com o escritor Gay Talese, que afirma que o jornalismo estaria se tornando "preguiçoso" a partir do advento dos recursos tecnológicos e da internet. Norte-americano de 86 anos, Gay Talese é um dos expoentes do jornalismo que escrevem, de modo elegante e atemporal, sobre o nosso fazer cotidiano.

 

Quem vive em Redação sabe que repórter tem de estar onde o fato acontece - no local do ocorrido, na rua. Quer se escreva para o impresso, quer se escreva para o online. Jornalismo é jornalismo em qualquer plataforma. Internet ajuda muito, redes sociais agilizam contatos, facilitam na busca de informações, contribuem para a entrega mais lépida do trabalho. Mas a web não substitui a observação, o olho no olho, a percepção do repórter, que são essenciais para a contação da história. Às vezes, é mais rápido irmos pelo caminho do jornalismo declaratório. Pega uma fala aqui, liga para o outro lado ali e faz o texto. No jornalismo online, isso é corriqueiro. O quanto há de necessário e o quanto há de comodismo nesse processo?

 

Os veículos de comunicação sérios, responsáveis e comprometidos com a informação precisam mostrar que o jornalismo continua interessante para os tradicionais leitores e atraente para os novos leitores. Seja no impresso, seja no digital.