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VERSÃO IMPRESSA

A imprensa não é inimiga, presidente

00:00 | 11/11/2018

O jornalismo tem aprendido a se reinventar a cada nova tecnologia e, ultimamente, as reinvenções que o pautam não têm sido apenas ferramentas. Aprender a lidar com um novo governo presidencial, que parece querer copiar estratégias nada amistosas do líder norte-americano Donald Trump ao excluir jornalistas, atacar a imprensa e usar tweets como meio de divulgar notícias oficiais, exigirá de jornais e jornalistas fôlego e habilidade. Fôlego - para insistir no que é seu dever, informar, e não construir um ambiente de silenciamento. Habilidade - para sobreviver em meio a tempos já marcados por diálogos inquestionáveis e convencimentos indiscutíveis.

 

Do lado de lá. O todo-poderoso Trump não gosta de ser contrariado, sabemos. E na semana que passou deu provas disso ao atacar, mais uma vez, um jornalista. "Deixe que eu administre o país e você administra a CNN. Chega", esbravejou em uma entrevista coletiva ao jornalista Jim Acosta. O repórter também foi chamado de "inimigo do povo", "rude" e "pessoa terrível" pelo presidente. Dia depois, o jornalista teve a credencial da Casa Branca cassada pelo Executivo norte-americano.

 

Na mesma entrevista, o irritadiço presidente chamou a pergunta da repórter Yamiche Alcindor, da PBS NewsHour, sobre o apoio do Partido Republicano a nacionalistas brancos, de "racista". Disse ele: "Foi uma coisa muito terrível o que você disse". A jornalista é negra.

 

Não é de hoje que Trump tem acessos de fúria com a imprensa. Virou bordão chamar a imprensa de "inimiga do povo" e classifica de notícias falsas (fake news) tudo o que lhe desagrada.

 

Intimidações

Do lado de cá. O presidente eleito Jair Bolsonaro já ameaçou cortar verbas publicitárias, disse que o jornal Folha de S.Paulo já "se acabou", excluiu jornais em sua primeira coletiva como presidente eleito e não poupa críticas à imprensa. À la Trump, prefere usar as redes sociais como imprensa oficial. Não à toa foi pelo Facebook seu primeiro pronunciamento oficial. Têm sido pelo Twitter os anúncios corriqueiros dos últimos dias. O que esperar da relação da imprensa com o novo presidente?

 

Acima de qualquer posicionamento político ou partidário, não existe democracia sem uma imprensa com liberdade de noticiar, sem uma imprensa com liberdade de exprimir o seu papel de informar. Parece simples, soa clichê, mas tem sido cada vez mais difícil falar de tolerância em uma sociedade raivosa. O jornalismo sério, competente e responsável acaba por ser prejudicado por uma massa que vê resquícios de perseguição, ideologia e politicagem em tudo à sua volta. É a mania de medir o outro pela sua régua.

 

Intimidações a veículos de imprensa e ataques a jornalistas são mais que desrespeitosos e ilegais, porque ferem um livre direito de expressão. São covardes, porque são, na maioria dos casos, encobertos por uma identidade mascarada, por perfis falsos, por contas não identificadas, por palavras truculentas, sem argumentos razoáveis para um debate honesto. Dia desses, atendi a um leitor indignado. "Não se pode mais criticar nada da imprensa que vocês chamam de agressão", exclamou. Tentei explicar a diferença entre crítica e agressão, mas temo ter sido uma tentativa vã. O limite entre a crítica e a agressão parece ter-se tornado tão sutil que virou sinônimo.

 

Ora, todos estamos suscetíveis a críticas. Jornalista não é semideus. Trabalhamos com a palavra, mediamos a tradução de fatos para o público, somos intérpretes de ações. É natural que, num ambiente democrático, plural e diverso, haja multiplicidade de pensamentos e análises - e, portanto, críticas por todos os lados. Mas o que leva a alguém a pensar que um posicionamento contrário seja o mesmo que uma ofensa? A que nível de debate chegamos? Ou não temos argumento suficiente ou usamos do insulto para desqualificar a discussão.

 

Essa forma tupiniquim de importar as ameaças norte-americanas contra a imprensa hoje apenas exclui um acesso a uma entrevista. Amanhã apenas poderá cortar uma verba publicitária do Governo. E daqui a alguns meses o que poderá sofrer a sociedade amparada por um apoio constitucional? Se a população tem o direito de ser informada, a imprensa tem o dever de informar - e precisa fazer isso de modo livre, sem intimidações. Quando se respeita um jornalismo sério, responsável e de qualidade, a imprensa não é inimiga.