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As pesquisas eleitorais

00:00 | 28/10/2018
 

Seja entre os militantes movidos por paixão, seja entre os moderados mais hesitantes, os institutos de pesquisa são motivo de debates. Principalmente nestes tempos de eleição, a desconfiança surge, de um lado, quando os números vão de encontro ao que se espera do candidato preferido pelo eleitor apaixonado. Para outros, há suspeição porque não se sabe ao certo como é a metodologia utilizada pela pesquisa, qual é o perfil dos entrevistados e porque não se conhece alguém que tenha sido ouvido pelo levantamento.

 

Os meios de comunicação precisam ajudar nisso. Quando se prioriza a divulgação de alguns institutos, deve-se informar por que razão o veículo dá mais ênfase àquela pesquisa em detrimento de outra. No O POVO, é nítido que levantamentos do Ibope e do Datafolha sempre têm destaque, chegando, várias vezes, às manchetes do jornal impresso e do portal. É inquestionável que são institutos já tradicionais no ramo, mas não únicos.

 

Alguns leitores já interrogaram sobre o motivo. "Observa-se que o jornal só dá destaque às pesquisas do Ibope e do Datafolha como se fossem empresas institucionalizadas, as únicas confiáveis. Não deveriam as demais empresas merecer o mesmo destaque ao menos para dar visibilidade à imparcialidade que o jornal declara ter?", questiona um deles. Outro leitor, Carlos Bezerra, também entrou em contato, há alguns dias, para perguntar o motivo de O POVO não mostrar os dados da então pesquisa Vox Populi. As perguntas dos leitores foram enviadas à Redação, em avaliação interna.

 

Clareza na informação

Visto que se vive um dos cenários mais complexos dos últimos pleitos e já que o brasileiro finalmente resolveu discutir política, é preciso precaução com as pesquisas. É um termômetro da realidade, que pode influenciar a decisão de alguém.

 

"As pesquisas eleitorais existem no mundo todo e são ferramentas importantes para candidatos e eleitores. Os institutos são confiáveis e, na maioria das vezes, o resultado se aproxima da intenção indicada. O veículo de comunicação deve ter muito cuidado com a apresentação dos resultados. É muito comum um veículo expor uma pesquisa de um ângulo que favoreça seu candidato. Por isso, deve apontar a rejeição, os votos cristalizados, as tendências, queda ou subida. Tudo deve ser transparente. Deve informar também a margem de erro e a amostra", comenta o cientista político Cleyton Monte, doutor em Sociologia e membro do Conselho de Leitores do O POVO.

 

É necessário, como alerta o professor Cleyton, atentar para a divulgação dessas informações a fim de informar ao leitor que se trata de uma pesquisa verídica, realizada por um instituto que, de fato, exista. O risco atual de se publicar um levantamento que seja falso é enorme. Ao mesmo tempo, priorizar determinados institutos de pesquisa é arriscado. Soa tendencioso e pode imprimir no leitor a preferência editorial do veículo. Não é agradável de forma alguma. Se o jornal, qualquer que seja, escolhe publicar somente pesquisas de alguns institutos, é necessário esclarecer ao leitor o porquê da opção.

 

Além disso, na janela entre o fim do primeiro turno até este domingo, não comparamos os dados oficiais da eleição com os levantamentos divulgados anteriormente. Perdemos a oportunidade de mostrar como a pesquisa é feita, de esmiuçar a metodologia, de esclarecer acerca da amostra representativa, de discutir sobre a confiabilidade dos números. É informação numa época em que se discutem a falibilidade e a fidelidade das pesquisas eleitorais.

 

Questionados, os editores de Política do O POVO não responderam às perguntas para esta coluna.

 

"Dizer que uma pesquisa é sempre séria e fiel pode parecer ingenuidade. Interesses empresariais e partidários existem e, em alguns casos, podem alterar a formulação da pergunta beneficiando certo candidato. Entretanto, a quantidade de pesquisas e institutos em campo bateu o recorde nas eleições 2018. Ou seja, se o resultado de uma pesquisa diferir absolutamente dos outros, algo tem de ser visto", analisa o professor Cleyton Monte.

 

São temas aparentemente simples, mas, quando postos em discussão na mídia, para o leitor, reforçam a função do jornalismo a favor do combate à desinformação.