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O mercado que pauta o jornalismo

2018-07-29 00:00:00

 

Daniela Nogueira

 

O mercado que pauta o jornalismo

 


Quem é leitor dos dois principais jornais impressos do Estado, O POVO e Diário do Nordeste, percebe que, por vezes, determinados eventos ganham mais destaque em um dos veículos segundo certos interesses. Em outro, pode até ter cobertura, mas ela é mínima. É aquele registro só para constar, mas sem ênfase, sem o investimento característico de uma pauta jornalística comum.


Na semana que passou, tivemos um exemplo. O Festival Halleluya, iniciativa religiosa que congrega, de acordo com os organizadores, mais de um milhão de pessoas nos cinco dias, foi assunto de pauta frequente no jornal Diário do Nordeste. Teve até uma generosa chamada na capa, com foto, na edição impressa de quinta-feira.


No O POVO, tem tido uma cobertura tímida quando comparado a outros dois grandes eventos que acontecem concomitantemente na Cidade. O carnavalesco Fortal e o pop Sana, também realizados nestes dias, ganharam matérias de página inteira no Guia Vida&Arte, de quinta-feira, foram destaques no portal do O POVO, são tema de postagens nas redes sociais e até assunto dos links de notícia na lista que o jornal manda pelo WhatsApp.


O Halleluya, não. Com o festival religioso, o tratamento é diferente. Não esteve em nenhum desses espaços ocupados pelo Fortal e pelo Sana, embora seja considerado também uma iniciativa de entretenimento e uma opção para diversão.


Basta, no entanto, uma pesquisa rápida para ratificar uma desconfiança inicial: quem apoia o quê. O Halleluya tem como um dos apoiadores o Sistema Verdes Mares, do qual faz parte o concorrente Diário do Nordeste.


Interesses

Assim, chega a ser “natural” para o meio jornalístico que a cobertura seja intensificada pelo veículo de comunicação que apoia a ação. Por sua vez, soa “natural” para o veículo concorrente que não seja dado tanto destaque para o evento, visto que isso pareceria uma publicidade espontânea ao outro.

É sabido, por exemplo, que o Festival Jazz&Blues de Guaramiranga, que ocorre sempre no período do Carnaval na Serra de Baturité, também não costuma ter destaque no O POVO. Há alguns anos o evento tem o apoio do grupo concorrente, o que quase inviabiliza sua publicação nas páginas e postagens de cá.


Mais um exemplo? O POVO realizou há pouco mais de um mês um grande festival multicultural, em quatro intensos dias de programação, no Centro de Eventos. Mesmo apresentando atrações conhecidas nacionalmente e promovendo ações das mais variadas temáticas culturais, o Festival Vida&Arte não foi pauta no Diário do Nordeste nem em qualquer mídia do Sistema Verdes Mares. Afinal, seria dada publicização direta ao veículo concorrente.


Acerca do tratamento dado ao Halleluya, o editor Marcos Sampaio, do Vida&Arte, comenta: “A cobertura do Halleluya é acordada pela Redação de ser feita pela editoria de Cidades e pelo portal O POVO Online. Tanto que várias matérias já foram feitas sobre o evento”. O jornalista enviou quatro links sobre o assunto – duas matérias deste mês, uma de junho e uma de abril. Apenas uma se referia à cobertura factual do evento, sobre a noite de abertura.


E assim tem ocorrido. Ninguém confirma que isso acontece, mas todo mundo sabe. É quase um acordo velado, em que automaticamente se exclui um evento das pautas frequentes pelo fato de ele carregar a marca do jornal concorrente. Mas e o leitor, como fica nessa história? Privado de mais informações.

 

O mercado que pauta o jornalismo


Quem é leitor dos dois principais jornais impressos do Estado, O POVO e Diário do Nordeste, percebe que, por vezes, determinados eventos ganham mais destaque em um dos veículos segundo certos interesses. Em outro, pode até ter cobertura, mas ela é mínima. É aquele registro só para constar, mas sem ênfase, sem o investimento característico de uma pauta jornalística comum.


Na semana que passou, tivemos um exemplo. O Festival Halleluya, iniciativa religiosa que congrega, de acordo com os organizadores, mais de um milhão de pessoas nos cinco dias, foi assunto de pauta frequente no jornal Diário do Nordeste. Teve até uma generosa chamada na capa, com foto, na edição impressa de quinta-feira.


No O POVO, tem tido uma cobertura tímida quando comparado a outros dois grandes eventos que acontecem concomitantemente na Cidade. O carnavalesco Fortal e o pop Sana, também realizados nestes dias, ganharam matérias de página inteira no Guia Vida&Arte, de quinta-feira, foram destaques no portal do O POVO, são tema de postagens nas redes sociais e até assunto dos links de notícia na lista que o jornal manda pelo WhatsApp.


O Halleluya, não. Com o festival religioso, o tratamento é diferente. Não esteve em nenhum desses espaços ocupados pelo Fortal e pelo Sana, embora seja considerado também uma iniciativa de entretenimento e uma opção para diversão.


Basta, no entanto, uma pesquisa rápida para ratificar uma desconfiança inicial: quem apoia o quê. O Halleluya tem como um dos apoiadores o Sistema Verdes Mares, do qual faz parte o concorrente Diário do Nordeste.


Interesses

Assim, chega a ser “natural” para o meio jornalístico que a cobertura seja intensificada pelo veículo de comunicação que apoia a ação. Por sua vez, soa “natural” para o veículo concorrente que não seja dado tanto destaque para o evento, visto que isso pareceria uma publicidade espontânea ao outro.

É sabido, por exemplo, que o Festival Jazz&Blues de Guaramiranga, que ocorre sempre no período do Carnaval na Serra de Baturité, também não costuma ter destaque no O POVO. Há alguns anos o evento tem o apoio do grupo concorrente, o que quase inviabiliza sua publicação nas páginas e postagens de cá.


Mais um exemplo? O POVO realizou há pouco mais de um mês um grande festival multicultural, em quatro intensos dias de programação, no Centro de Eventos. Mesmo apresentando atrações conhecidas nacionalmente e promovendo ações das mais variadas temáticas culturais, o Festival Vida&Arte não foi pauta no Diário do Nordeste nem em qualquer mídia do Sistema Verdes Mares. Afinal, seria dada publicização direta ao veículo concorrente.


Acerca do tratamento dado ao Halleluya, o editor Marcos Sampaio, do Vida&Arte, comenta: “A cobertura do Halleluya é acordada pela Redação de ser feita pela editoria de Cidades e pelo portal O POVO Online. Tanto que várias matérias já foram feitas sobre o evento”. O jornalista enviou quatro links sobre o assunto – duas matérias deste mês, uma de junho e uma de abril. Apenas uma se referia à cobertura factual do evento, sobre a noite de abertura.


E assim tem ocorrido. Ninguém confirma que isso acontece, mas todo mundo sabe. É quase um acordo velado, em que automaticamente se exclui um evento das pautas frequentes pelo fato de ele carregar a marca do jornal concorrente. Mas e o leitor, como fica nessa história? Privado de mais informações.


Ora, ao noticiar um evento que tem relevância pública, seja por movimentar a Cidade de algum modo, seja por reunir milhares de pessoas ao mesmo tempo, o veículo deveria ser, sobretudo, regido pelo bom jornalismo. Ao contrário, em vez de promover uma seleção hierárquica dos acontecimentos como critério para publicação de uma notícia, os veículos selecionam a informação a partir dos seus apoiadores!


Desse modo, reforçam os interesses mercadológicos em detrimento da divulgação da informação ao mesmo tempo em que fragilizam a instituição jornalismo. Uma prática rotineira em que o mercado se sobrepõe à noticiabilidade dos fatos.


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