PUBLICIDADE
VERSÃO IMPRESSA

Lições das paralisações

00:00 | 03/06/2018

As paralisações que os caminhoneiros encabeçaram nos últimos dias e que tomaram conta dos noticiários locais e nacionais nos mostraram que a imprensa precisa sempre aprender com os equívocos que comete.

Porque sempre haverá outros mais à frente. Independentemente, por ora, do posicionamento inicial político da greve, um movimento daquele tamanho merecia a cobertura jornalística que teve – assim como merece um olhar mais apurado das pautas dos grandes veículos de comunicação.

Por dias, foi assunto dos mais comentados no País, por diversos motivos – seja pelo impacto gerado à população, seja pela adesão ao movimento, seja pela cobertura midiática. O certo é que a imprensa demorou a dar o devido destaque à história, fazendo-o apenas quando a movimentação causou um efeito direto no abastecimento e, consequentemente, no consumo. A impressão que dá é que parecia algo inimaginável, sem relevância suficiente a ponto de provocar essa falta no fornecimento dos insumos. A imprensa em geral não trabalhava com essa hipótese? Nem os especialistas, sempre atentos, chegaram a alertar os jornalistas?

No fim de semana passado, a correria chegou aos postos de gasolina.

O Ceará manteve-se em uma situação confortável, é verdade. Mas, pelo O POVO, os cearenses eram alarmados constantemente de que a gasolina poderia acabar em poucos dias. A tarja com o aviso “Urgente” era atualizada com frequência nas redes sociais – 90% dos postos estariam sem combustível no Ceará; metade desses, na Grande Fortaleza. Nos supermercados, a expectativa era de que alguns produtos começariam a faltar, o que acabou acontecendo, mas só dias depois. E nada de primeira necessidade.  

 

Mais perguntas Qual é o limite entre a prestação da informação e as especulações em torno das possíveis consequências das paralisações? A imprensa deve se preocupar, é óbvio, em municiar o leitor de dados e notícias de qualidade suficientes para que ele se sinta contemplado e satisfeito com o material jornalístico que recebe. No entanto, não deve ser um agente causador de pânico e terror em momentos sensíveis – situações que envolvam segurança pública e saúde são típicas disso, por exemplo.

Além disso, um aspecto ainda não tão esclarecido pela imprensa é o “quem é quem na paralisação dos caminhoneiros”. Foi um movimento articulado pela categoria dos trabalhadores com apoio dos empresários? Ou vice-versa? Quem são os líderes do movimento? Mesmo em relação à categoria, quem deve falar por ela? Os movimentos precisam definir seus chefes, e os jornalistas devem conhecê-los.

Na semana que passou, o leitor Paulo Roberto Clementino Queiroz, membro do Conselho de Leitores do O POVO, questionou um posicionamento do jornal, a partir de informação de colunas. “Desde o início da greve, fala-se que o protagonismo da mesma não é, efetivamente, dos caminhoneiros, mas dos empresários de transportes. No domingo, a coluna do Elio Gaspari deixou isso muito claro. O que questiono é: por que o jornal continua tratando o assunto como greve dos caminhoneiros se esses profissionais são minoria se comparados com os empresários do setor? Além disso, apesar de serem colunas, não há diferença entre opinião e dado fático, como parece ser o caso? Por que não investigar?”

É um ponto de partida o indicado pelo leitor, porém não avançamos muito. Fizemos uma intensa cobertura factual, noticiando fechamentos e aberturas de rodovias que cortam o Ceará, abastecimento e falta de suprimento dos produtos, trânsito nas estradas, reivindicações, transtornos, caos (sempre ele!) e medidas anunciadas pelo Governo. Não aprofundamos, no entanto, acerca do que realmente os representantes que mobilizaram as paralisações queriam ou dos desdobramentos práticos atuais da movimentação. O que sobrou após a paralisação que mexeu com a vida de milhões de brasileiros, mas que, incrivelmente, ganhou o apoio popular? Como explicar trabalhadores pedindo intervenção militar ou movimento grevista supostamente se articulando com outros setores? Dias após as paralisações terem sido encerradas, continuamos a ter mais questionamentos do que respostas.