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Qual dor sai no jornal?

00:00 | 13/05/2018

  Os fatos que caracterizam a violência aliados aos números da criminalidade que se intensifica em nosso contexto encontram, cada vez mais, espaço na mídia local. São circunstâncias que se impõem ao noticiário, e a mídia não deve estar alheia à sua função de informar tais eventos. Como tema polêmico que é, exige cautela tratar do fenômeno da violência, visto que os aspectos que o rodeiam são variados e nem sempre têm o mesmo tratamento pelos veículos.

Não ao acaso, por exemplo, O POVO publica, às segundas-feiras, a coluna “Segurança Pública”. É uma tentativa clara de, ao discutir o tema de modo mais aprofundado, abordar assuntos que ficam à margem na cobertura noticiosa do dia a dia, que lida com obstáculos cotidianos inerentes ao factual, como o espaço reduzido para discussões mais críticas, o debate com outros profissionais da área ou de campos afins que possam contribuir com outros fatores e um espaço opinativo, que permite uma contextualização mais crítica e, por óbvio, analítica.

O jornal tem noticiado as mortes que lamentavelmente têm ocorrido na Capital. Algumas são destaque na primeira página do jornal e elevadas à condição de manchete – o ponto alto do dia. O fato tem incomodado leitores, que se queixaram por que motivo uns crimes recebem tanto destaque no O POVO, enquanto outras mortes são noticiadas em espaço menor.

“Por que umas mortes comovem mais que outras? Ter acontecido no (bairro) Bom Jardim foi motivo para tal morte não estar na manchete da primeira página? Haveria os (crimes) banais e os extraordinários?”, foi a mensagem que recebi de um leitor.

Encaminhei à Redação por meio da avaliação interna que faço.

Mortes na Capa É certo que o leitor se refere a uma morte que ocorreu logo após outro crime que fora manchete da Capa. Havia, pois, uma comparação imediata. Diante da sensação de insegurança atual, noticiar crime de morte em manchete, como o latrocínio citado, é enfatizar mais uma cena de violência da vida real. É fato.

O questionamento daí é: por que algumas mortes têm mais repercussão que outras? Por quais motivos alguns assassinatos têm presença mais forte na mídia?

Segundo o diretor-adjunto da Redação, Erick Guimarães, “é necessário refutar integralmente essa ideia de que uma vida possa ter mais ou menos valor do que outra”. Ele nega que haja uma “seletividade na publicação das notícias sobre violência que dá tratamento privilegiado aos moradores da zona nobre em detrimento dos moradores de regiões periféricas”. Se assim fosse, completa, “O POVO não se preocuparia tanto com a situação dos moradores pobres vítimas da violência e se utilizaria um critério quase que de classe para definir o destaque dado”.

Erick cita como exemplos das mortes noticiadas pelo jornal a Chacina das Cajazeiras, o assassinato de Dandara dos Santos (em março de 2017, no Bom Jardim), além da criança morta também no Bom Jardim neste mês. As histórias que não contamosSim, há casos, que, mesmo tendo ocorrido em bairros periféricos da Cidade, chegam à mídia. Além dos citados, vale lembrar a história de Stefhani Brito (no Mondubim, cujo corpo foi levado de moto pelas ruas do bairro). São situações emblemáticas em que as redes sociais contribuíram muito para a divulgação.

Em muitas dessas ocorrências, a repercussão de mortes da periferia ocorreu diante da barbaridade, da crueldade com que o crime ocorreu ou devido a algum fato que o qualificou como extraordinário.

Sejam as mortes em série, seja o assassinato por preconceito, seja a continuação da crueldade com o corpo. Todos merecem o acompanhamento, como forma de combate a diferentes formas de violência.

Mas e as mortes que ocorrem todos os dias nos espaços urbanos já estigmatizados? E as histórias dos assassinatos nas áreas da Cidade de que a imprensa não toma conhecimento? São fatores essenciais para analisar e compreender melhor os dados de violência e criminalidade divulgados.

Há anos O POVO não trata mais a cobertura de casos de violência como “assuntos de polícia”. Nem Editoria de Polícia existe mais. Refletir acerca da cobertura, porém, é uma necessidade constante. Cobrir violência hoje não se restringe a uma pauta de crime, mas faz parte, sobretudo, de uma agenda social.