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A imprensa e a disciplina "o golpe de 2016"

00:00 | 04/03/2018

Tem sido notícia, nos últimos dias, a inclusão de uma disciplina no currículo de universidades públicas brasileiras. Depois de a Universidade de Brasília (UnB) anunciar que ministrará “O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil”, outras 12 instituições, até a semana passada, divulgaram que seguirão o exemplo. Entre elas, a Universidade Federal do Ceará (UFC). Como O POVO publicou, a Universidade Estadual do Ceará (Uece) está analisando a inserção do conteúdo à grade curricular.

Desde o anúncio da UnB, multiplicam-se as matérias acerca do aumento do número de universidades que aderiram à iniciativa e sobre a repercussão do assunto no Ministério da Educação. A discussão versa em torno do programa acadêmico da disciplina, da relação estremecida entre o Governo Federal e as universidades envolvidas e, claro, do uso do termo “golpe”. A maioria das notícias, no entanto, se restringe ao factual – ou seja, ao acontecimento dos fatos. Ainda é necessário um debate mais profundo sobre o tema que envolve a formação de um sem-número de profissionais e a conjuntura sociopolítica brasileira. 

O cientista político Cleyton Monte, membro do Conselho de Leitores do O POVO, avalia que ocorre “um processo de espetacularização do fato”. Para ele, a cobertura midiática ainda carece de aprofundamento. “A cobertura ficou parcial e superficial. Em nenhum momento verifiquei alguma empresa de comunicação discutindo sobre a pertinência dos autores inseridos na disciplina citada. Os artigos e as reportagens ficaram restritos à polêmica entre as ações do ministro da Educação e os discursos em defesa do professor. Faltou debater um ponto fundamental e constitucional: a liberdade de cátedra. Interpelar um docente juridicamente por seus encaminhamentos acadêmicos me pareceu um ato desproporcional e autoritário”, comenta Cleyton. 

 

Por Daniela Nogueira 

 

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“O Ombudsman tem mandato de 1 ano, podendo ser renovado por até três períodos. Tem status de Editor, busca a mediação entre as diversas partes e, entre suas atribuições, faz a crítica das mídias do O POVO, sob a perspectiva da audiência, recebendo, verificando e encaminhando reclamações, sugestões ou elogios. Tem ainda estabilidade contratual para o exercício da função. Além da crítica semanal publicada, faz avaliação interna para os profissionais do O POVO”. CONTATOS EMAIL: OMBUDSMAN@OPOVO.COM.BR WHATSAPP: (85) 98893 9807 TELEFONE: (85) 3255 6181 (Se deixar recado na secretária eletrônica, informe seu telefone)   

 

Atenção aos desdobramentos A utilização do termo “golpe” ainda rende uma série de questionamentos – contrários e favoráveis. Certamente não será a mídia que definirá o modo certo da abordagem. No entanto, a imprensa, formadora e influenciadora de opinião que é, deve ser mediadora de reflexões que permitam as argumentações. 

O professor Cleyton Monte lembra que a palavra golpe, com toda a ideologia que carrega, não é usada somente pelo PT e por demais partidos políticos considerados de esquerda, mas também por associações, sindicatos e movimentos sociais. “Particularmente, não gosto deste termo ‘golpe’. Acredito que mais confunde do que explica o fenômeno. Prefiro abordar a ideia de crise e impasses da democracia. Fiz críticas à ementa do professor Luis Felipe Miguel (da UnB). Creio que vários autores ficaram de fora. Contudo, o professor é um grande intelectual da área e merece todo o respeito. Não vejo como propaganda da esquerda, mas como um fórum importante de discussão”, observa Cleyton Monte, que é pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (Lepem/ UFC). 

Assunto não faltará para ser somado à questão. Cleyton ressalta que a repercussão do curso produzirá várias outras temáticas. As aulas certamente serão filmadas e devem ser discutidas também na sociedade extra-acadêmica, que poderá avaliar o rumo que a disciplina tomará e os desdobramentos da polêmica. 

A mídia precisa ficar atenta à discussão, fazendo o que dita o sempre bom e conhecido jornalismo – ouvir as versões, apresentar os fatos, contrapor as ideias, questionar. Dar voz aos professores e demais pesquisadores que discordam da abordagem e mostrar a proposição de atividades que sugerem é uma opção para qualificar o debate. “Algo do tipo: foi golpe? Diferentes visões sobre a crise política brasileira. Isso pode ser feito nos mais diferentes cursos – Direito, Economia, Jornalismo, Ciências Sociais, Filosofia, Pedagogia, entre outros. É um tema fundamental da agenda pública brasileira. O que se discute, na verdade, são os percursos da democracia. Não é desperdício de recurso público, pois faz parte das atribuições da universidade”, explica o pesquisador.

Em mais um ano de efervescência política, contribuir para o entendimento dos elementos que formam o sistema político e democrático é, cada vez mais, função da imprensa. A propósito, conforme o calendário da UnB, as aulas terão início nesta segunda, 5.