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VERSÃO IMPRESSA

Os jornais e a cobertura da segurança pública

00:00 | 04/02/2018

Daniela Nogueira

 

A tragédia das Cajazeiras, que impressionou também por ser a maior chacina registrada no Ceará, fez intensificar a cobertura jornalística da segurança pública nos meios de comunicação locais. No domingo passado, O POVO trouxe o assunto na manchete da capa, dedicando cinco páginas para o tema. O Diário do Nordeste, sem circulação impressa aos domingos, apresentou a notícia em sua versão digital.Nos dias seguintes, os desdobramentos do noticiário local e nacional davam conta de tentar entender – e explicar – o que teria motivado a matança, envolvendo diversos matizes relacionados ao massacre. O possível crescimento dos grupos criminosos, a disputa por território, o tráfico de armas e drogas, o medo e a insegurança da população, e as responsabilidades do Estado, por exemplo, foram temas constantes na semana que passou.Dois dias após a Chacina das Cajazeiras, o Ceará depara com outra carnificina. Na cadeia pública de Itapajé, 10 detentos mortos. Mais do que números que colaboraram para elevar os índices da mortandade no Estado, era preciso abordar com atenção os contextos dos dramas que se somavam.A cobertura da imprensa impressa hoje, no assunto segurança pública, tem uma abordagem mais complexa. Décadas atrás, restringia-se ao fato sem se debruçar sobre a interpretação da violência. A inclusão de dados estatísticos, a análise de profissionais acerca dos eventos e o reforço no jornalismo investigativo ampliaram o foco e qualificaram o debate.As publicações se transformaram. Fotos chocantes com corpos ensanguentados e exposição de criminosos, por exemplo, não são (e não devem ser) mais publicadas pelos grandes jornais que prezam pelo jornalismo com boa qualidade. Dos profissionais, são exigidas qualificações mais sólidas e sensibilidade.Sim, ainda há programas televisivos que insistem no sensacionalismo vexatório, com apresentadores aos gritos, expondo cadáveres e sangue, o que pouco contribui para a função social a que se destina o jornalismo. E, em geral, são programas de audiência alta, o que demonstra haver um público que se interessa por essa estrutura – o que é mais preocupante ainda.

 

Mais prudência

Quanto aos dois maiores jornais impressos locais, será preciso ainda mais cuidado ao lidar com o tema. Edições equivocadas de falas das autoridades, frases sem contextualizações e divulgação de “memes” sobre o assunto não levam a uma mudança qualitativa da cobertura.Para o cientista político Valmir Lopes, professor da UFC, há diferença na forma como O POVO e o Diário do Nordeste tratam a segurança pública: “O POVO tende a estetizar e a sociologizar mais, enquanto o Diário tem mais habilidade em relatar os fatos desse tipo”. Em suma, seria algo como: O POVO reflete mais, o Diário relata melhor. Segundo o professor, “é uma opção” que os veículos parece fazerem. Por mais que ambos relatam e reflitam, há uma predominância de um dos aspectos.Conforme Valmir, é necessária prudência aos veículos de comunicação a fim de não reunir todos os fatos violentos de um marco temporal e tentar, a todo custo, relacioná-los. O que a tragédia das Cajazeiras teria a ver diretamente com o massacre de Itapajé? A propósito, como provar a ação de uma facção criminosa em um caso? “Falta nomear o líder dessas facções. Quem são essas pessoas? A facção não é uma entidade, um fantasma que age por si só”, comenta.

 

O professor ressalta que se deve aprofundar nos questionamentos e na busca por informação às fontes do Estado. “Quais são as limitações da Polícia? O que impede que se realize o bloqueio de celular nos presídios? Um policiamento nas ruas iria impedir um evento daquele tipo (chacina das Cajazeiras)? É complicado prever”, opina Valmir.É da responsabilidade do jornalista, e consequentemente do jornal, ter em vista que sempre a cobertura pode ser melhor. Técnicas de investigação jornalística e ferramentas das ciências sociais podem caminhar juntas rumo a uma nova abordagem. A violência tem-se comportado de modo diferente e surpreendente nos últimos anos, numa escalada que nos apavora. Mas essa sensação de temor deve ser noticiada de maneira honesta e lúcida. Investir no sensacionalismo e na escandalização dos fatos já tão amplamente aterrorizantes é uma postura editorial que não terá impacto direto no debate para a solução do problema da violência.

 

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