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O cuidado com os vulneráveis

00:00 | 11/02/2018

Um dos principais objetivos e missões do jornalismo é contar histórias. Não necessariamente contar primeiro e preocupar-se com a exclusividade. Mas, sobretudo, contar melhor. Em muitos dos casos, há pessoas que vivenciam a realidade noticiada ou que podem contribuir, de alguma forma, para o desenvolvimento da notícia. Esses “personagens” são as pessoas citadas na matéria, de modo explícito ou anônimo, que nos ajudam a entender melhor determinados cenários ou vivenciaram um acontecimento interessante o suficiente para estar nas páginas do jornal.

Não significa que essas pessoas devam ser apenas aquelas amplamente conhecidas. Pelo contrário – muitas vezes, as histórias mais notáveis são contadas pelos “seres desimportantes” (para citar Manoel de Barros) aos olhos da sociedade. 

Em alguns assuntos, a circunstância é mais delicada. Quando a pauta envolve criança e adolescente em situação de risco ou violência, pessoas em situação de rua, vítimas da violência em geral ou pessoas em outras situações de vulnerabilidade, por exemplo, é necessário intensificar o cuidado – de não expor, de não revitimizar (se for o caso), de não constranger, de não contribuir para uma situação de mais transtorno. 

Na conjuntura local, temos visto constantemente no noticiário casos relacionados à violência. No O POVO, que tem feito uma cobertura profunda e extensa acerca da insegurança pública, inclusive. É fato que estamos diante de um momento extremamente sensível, que exige de nós mais acuidade e sensatez, principalmente ao citarmos as pessoas envolvidas nesse cenário. Moradores de determinadas comunidades estão tensos e assustados. 

 

Professores e demais funcionários de escolas são ameaçados, e alunos deixam de ir às aulas – por medo. É um dos casos em que o jornalismo deve servir como mediador para a cobrança dos direitos mais básicos da cidadania, como o direito à habitação e à educação. Mas também é um dos casos em que o jornalismo deve se envolver de cautela e análise a fim de não elevar a vulnerabilidade a que estão expostas as pessoas em questão. 

 

O jornalismo como meio

Os meios de comunicação legitimam essas pessoas que estão vulneráveis como cidadãs. São, muitas vezes, o porta-voz desses personagens para discutir caminhos, articular negociações com esferas do poder público e construir um cenário de soluções. Entretanto, não deve perder a perspectiva de que o uso de terminologias específicas, a menção de alguns dados e a abordagem midiática podem colocar as pessoas cada vez mais em risco.

“O jornalista tem que ter cuidado com a vida do outro. Eu sei da aflição (por) que a gente passa”, disse-me na semana que passou um habitante de uma das comunidades que vivem uma situação de risco devido à violência. Em conversa com essa fonte, ela fazia questão de me lembrar que, para quem conta a história, por mais ciente que esteja do compromisso que assumiu, não vive a tensão de quem precisa todo dia conviver com a agonia. O jornalista vai ao local, faz a matéria, cumpre a pauta e vem embora. As pessoas em risco ficam lá. “E depois que sai no jornal, não tem como voltar atrás. A gente ‘tá exposto, vocês não”, relatou. 

Eu opto por não citar o nome nem demais informações relacionadas a essa fonte como uma tentativa de contribuir para a sua proteção. Destaco, no entanto, os cuidados que nós, jornalistas e jornalismo, temos tido – e devemos intensificar a cada dia mais, a cada pauta, a cada assunto da seara do arriscado. Isso envolve, sobretudo, o campo da violência, a que O POVO tem se dedicado em cobrir com empenho e vigor. É uma responsabilidade sobre a vida do outro. Temos a consciência disso, mas, por vezes, não temos a dimensão do alcance a que uma notícia pode chegar. 

Entendemos que tem sido muito difícil tratar de temas sensíveis no estado atual. O jornalismo tem-nos ensinado a refletir mais, a analisar melhor, a nos criticarmos antes de publicarmos. É sempre insuficiente. Sempre precisamos nos dedicar mais ao enfrentamento da injustiça, mas com a máxima preservação da integridade e da vida do outro. As fontes decidem conversar conosco, porque veem na “autoridade” da publicização jornalística uma oportunidade de melhoria e de reafirmação de sua cidadania. Não devemos desconstruir isso.

Esse lugar de destaque que o jornalismo ocupa deve servir como intermédio para desencadear diálogos, soluções e efetivação de direitos. Não para expor mais ainda quem já está em uma situação de risco. É nossa responsabilidade.

 

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