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A distopia política de Michel Temer

2018-05-24 01:30:00
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Dois anos atrás, o futuro imaginado por Michel Temer (MDB) era outro. Economia em plena recuperação, a base congressual unida em torno de um nome governista e a Operação Lava Jato apenas como uma nota de rodapé esquecida num passado já remoto.

Mas a ponte do novo governo acabou levando a uma distopia política para o presidente. A projeção do PIB foi revista pra baixo, o número de brasileiros desempregados aumentou e o cerco da PF e do Ministério Público em torno do emedebista se fechou. Mesmo a intervenção na segurança pública do Rio fez água em meio ao aumento no número de homicídios.

Novamente, Temer precisou recuar. Agora, da candidatura – e do seu slogan pouco alvissareiro também. Natimorto, o desejo de apresentar-se como alternativa cedeu vez à preocupação de submergir enquanto os céus de Brasília desanuviam e o ímpeto da Justiça se contém.
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Mas a pressão – e os problemas – não arredam pé. A guerra dos combustíveis, vista nas ruas do País, é apenas a fração mais evidente de um gravíssimo problema: o governo está à deriva. A redução no preço do diesel, ainda que temporária, representa uma perigosa concessão ao populismo tarifário, expediente comum a que governos mal avaliados recorrem às vésperas de eleições presidenciais. Dilma Rousseff usou-o às largas. O resultado, todavia, não saiu como o esperado.

O presidente da Petrobras, Pedro Parente, garante que não se trata disso, e afastou qualquer ingerência do Planalto na política de preços da estatal. Do outro lado, o senador Eunício Oliveira (MDB), líder do Congresso, afirma que, “entre os ‘Parentes’ e os consumidores”, vai ficar com os consumidores.

O cenário deixa claro: a melhora da economia não poderá ser um trunfo eleitoral. O candidato oficial, o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles, terá dificuldades de convencer o eleitor de que a crise passou. E, risco maior, as soluções miraculosas no campo econômico parecerão subitamente realistas.

E aqui vai um alerta, especialmente para Ciro Gomes (PDT), cujas chances de chegar ao segundo turno das eleições cresceram vertiginosamente nas últimas semanas: não há saída fora da ortodoxia. O pedetista tem afirmado frequentemente que, caso seja eleito, vai revogar a reforma trabalhista e o teto de gastos. Tudo bem. Mas Ciro precisa começar a dizer o que pretende colocar no lugar. Do contrário, está bravateando.

Por enquanto, o candidato tem se saído muito bem como franco-atirador, mas vai chegar esse momento em que o ex-ministro da Fazenda - sobretudo se confrontado por Meirelles - terá de jogar a real para o eleitor. E é importante que isso seja feito durante a campanha e não depois. Dilma também usou essa arma em 2014, e todos sabemos como a história terminou.

LULA X AZEREDO

Embora o Fla x Flu nacional tente equiparar os dois casos, não há termo de comparação entre a prisão de Lula, no início de abril, e a de Eduardo Azeredo, cumprida ontem. O petista foi julgado e condenado em tempo recorde na primeira instância e depois no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) por crimes relacionados ao “petrolão”.

As primeiras denúncias contra Azeredo, ex-presidente do PSDB, remontam a mais de 20 anos. Seu processo, entretanto, foi aberto há pouco mais de uma década, período durante o qual as acusações contra o tucano ficaram quicando de instância em instância, de modo a não comprometer os planos eleitorais de Geraldo Alckmin (2006), José Serra (2010) e Aécio Neves (2014). O tempo passou, e os três presidenciáveis disputaram, e perderam, a corrida ao Planalto. Hoje, cada um deles tem pelo menos um inquérito na Lava Jato para chamar de seu.

Como exercício de ficção, porém, imaginemos que a Justiça seja de fato cega e deseje produzir estragos nos dois maiores partidos brasileiros em porções iguais. Teria de começar mirando o tucano mais bem colocado nas pesquisas à Presidência neste ano. Alvo da Lava Jato, o seu processo, então, andaria surpreendentemente rápido para os padrões do nosso Judiciário. Até que, quando mal déssemos por nós, ele seria condenado e preso, evitando-se sua participação no pleito.

Bom, o único postulante social-democrata que atende a esses pré-requisitos é... Alckmin. Que, até ontem, permanecia solto e seu processo, sob o mais absoluto sigilo.

 

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