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O amor da Monareta

2018-03-07 01:30:00

Monareta era o nome da primeira bicicleta. De segunda mão, a corrente caía a cada volta, o pedal rangia, a câmara de ar tinha uma dúzia de remendos e o azul da pintura era como o de camisa desbotada por Kiboa. Mas fiquei feliz. Tinha andado tanto na Caloi Cross novinha do meu primo nas últimas férias. Agora que havia experimentado felicidade, queria uma pra mim. Só pra mim. Mas só tínhamos dinheiro pra Monareta.


Explico: uma Cross naquela época era como um Corolla. Pneu balão, aro especial, guidão inox, cachimbo reforçado, coroa cromada e catraca 16. Forro no quadro e adesivo luminoso. Uma bicicleta feroz, própria para o calçamento das ruas da infância, onde a gente perdia dois terços do dedão toda semana. O sonho de qualquer menino, portanto.


Mas calhou de ser a Monareta. O pai chegou com ela e, sem muita pompa, sentenciou: está aqui a bicicleta. E depositou o cacareco no jardim da casa. Precisaria regular umas peças, o aro estava empenado e a corrente, meio seca. Mas, feito isso, quebraria um galho.


Não fui com a cara dela de primeira. Desengonçada, lembrava um dromedário com escoliose. Ou o Aedes Aegypti visto nos livros de ciência. Além da falta de charme, tinha o nome: Monareta. Desgostoso, eu soletrava: Mo-na-re-ta. Era tão diferente de Caloi. Como uma tia da escola que ainda usasse pince-nez, a bicicleta me fazia pensar que estava entregando pães nas casas do bairro e não dando um passeio sob olhares curiosos das meninas.


Os amigos de pronto caçoaram: lá vai o Carlos Henrique de velocípede (era meu nome de criança). Eu tinha dez anos ainda, e a desaprovação de outros pivetes era como murro na ponta do queixo. Mas, no entanto, estava feliz. Apontava defeitos nas bicicletas deles também ou frescava com os nomes das mães (Valda, por exemplo). E me dava por satisfeito.


Depois das gozações e com algum trocado no bolso, fiz o que o pai pediu. Levei a bichinha à oficina. Era como se levasse o PET moribundo ao veterinário. Com cuidado, fui arrastando o cangueço até a outra rua, onde morava o Anderson, cujo pai era mecânico e a quem chamávamos graciosamente de “Seu Graxa”. Deixei a Monareta aos cuidados dele. No dia seguinte, passei pra apanhar. Estava como nova.


Nosso amor durou seis meses e seis dias. Andávamos pra cima e pra baixo. Aprendi a correr e a ficar sem as mãos. Uma vez, numa descida da ladeira, dei de cara com a pedra solta na rua. A bicicleta ficou, eu fui. Foi a primeira vez que senti na pele a pétrea verdade das Leis de Newton, que só aprenderia muitos anos depois. Voei uns três metros sobre o guidão e aterrissei perto do meio-fio. Até hoje trago marcas da queda. Uma cicatriz, mas também a certeza de que já levei a pior queda que poderia levar na vida. No dia de nossa despedida, chorei.


“Vamos ao Centro hoje”, disse o pai. Fazer o quê?, quis saber, a curiosidade pipocando na panela do juízo. “É surpresa”, respondeu. A novidade era uma Monark BMX preta com amarelo estalando de nova.


Voltamos pra casa de táxi, o que também era motivo de orgulho - a gente só andava de táxi em caso de emergência. Era como beber Coca-Cola quando adoecia. Eu fui no bagageiro do carro. Do lado, a bicicleta nova. No caminho, tentava fingir naturalidade.


Na rua, dei umas voltas assim que chegamos. Passei o dia empoleirado na Monark, a bunda dolorida por causa da sela de plástico. Três letras apenas: BMX. No quadro, uma frase em inglês que eu não entendia. Tão moderna. Mas, no fundo, tinha saudade da Monareta. Por onde andaria?

 

Gabrielle Zaranza

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