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E ainda era terça

01:30 | 11/01/2018

Um pouco assustado, comentei com uma amiga no início da semana: ainda é terça-feira, mas é como se já fosse sexta. Na minha cabeça, misturavam-se detritos de polêmicas dos dois dias anteriores, restos de brilho que ricocheteavam na internet sob a forma de discussão carnavalizada, pedaços de batatas e fios de cabelos arrancados a golpes de puxões e trechos de áudios compartilhados como mensagens clandestinas à sombra de uma autoridade tirânica. Tudo isso como uma nebulosa de tags que rodopiava nos céus alencarinos numa espécie de Réveillon fora de época.

A barafunda de temas, a urgência de reter nas mãos eventos movediços e a pulsão de estar a par dos acontecimentos enquanto ainda se desenrolavam – tudo isso me levou a imaginar que eu participava, na verdade, de uma gincana no antigo Maria Ester, a escola onde, dos sete aos 12 anos, vivi minha própria Prison Break. Como no disco do Falcão, a vida na terrinha de Belchior e Bode Ioiô naquelas 48 horas tinham sido uma sucessão de arengas que se sucedem sucessivamente sem cessar. Não lembro de dois dias tão vertiginosos na capital cearense. Não vivemos nada parecido nem mesmo quando inauguraram o Terminal do Lagoa e nós, ainda adolescentes, nos divertíamos fazendo a ponte aérea Lagoa-Parangaba, o que se revelaria como o primeiro contato da cidade com um hub (saudades do visionário Juraci).

E ainda era terça. Argumentei que a força dos tempos era essa, as coisas aconteciam antes mesmo de acontecer, numa masturbação cujo gozo antecedia qualquer gesto. E, quando tudo ganhava concretude, já parecia velho. Novidades estragadas muito antes do ponto certo de cozimento, como um pudim que desandasse porque não tivemos a santa paciência de esperar. Ou o macarrão instantâneo que amolecesse porque estávamos distraídos e os três minutos de preparo se passaram como se fossem dez segundos enquanto respondíamos a notificações no celular.

 

Como nos tornamos uma nação de ejaculadores precoces? Isso eu não sei.

 

Mas o fato é que, oscilando entre o fastio e a vertigem, como se tivesse engolido às pressas a oferta número 3 do McDonalds (batata média, por favor) e entrado numa roda-gigante no espigão da Praia de Iracema pronto a experimentar uma aguda sensação de felicidade, senti que o chão faltava. A cada supermercado que aderia ao meme da hamburgueria, a cada foto da garota de nome extravagante atravessando meteoricamente as redes sociais, a cada novo trecho de áudio que pipocava no Whatsapp, o sólido se desmanchava no ar. Tudo era móvel, não apenas as dunas, e nada se sustentava em pé, vaticinando um presságio de minha avó quando, ainda em 1994, diante da escalação de Raí para o meio-campo do Brasil, ela olhou fixamente pra mim e pespegou: meu filho, um país que aceita o Raí como camisa 10 jamais será um lugar sério. E deu uma cusparada na parede.

 

Atormentado com essas lembranças da vovó, procurei ajuda. Pedi a colegas de trabalho que abrissem o calendário e se certificassem de que era realmente terça. Para desespero pessoal, era. Tinha algo errado, eu disse. As terças costumam ser tranquilas, diazinhos preguiçosos, ainda mais com essa chuvinha que renova nosso estoque de mofo nas roupas e desperta no cearense o seu DNA paulistano, fazendo com que o nativo desfile seus moletons nas paradas do Ancuri ao Bairro de Fátima.

 

Cuidei eu mesmo de checar o calendário. Para pasmo de ninguém, o cursor do computador apontou a data precisa: 9 de janeiro de 2018. O ano estava apenas começando, mas já me sentia como o passageiro desavisado que entrasse num Siqueira-Papicu recém-borrifado com o perfume Biografia e eu, enjoando depois de almoçar num quiosque, pedia pra descer na Augusto dos Anjos e fazer todo o restante do caminho a pé, ainda que durasse a vida inteira e não houvesse nenhuma garantia de chegar em casa são e salvo.