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Vendedores de Ilusão

01:30 | 17/04/2018

A percepção de sentido de destino comum leva muito tempo para ser sedimentada no cotidiano de uma coletividade. Quando as expectativas de conquista de leis justas e de instituições comprometidas com o bem-estar social entram em desarranjo, como está acontecendo no Brasil, a sociedade fica vulnerável aos impactos cênicos do pano de fundo da negatividade política.

Bombardeada por informações e opiniões que levam a crer na negação da política, na naturalidade da corrupção e na vantagem social de ser trambiqueiro, a população vive sinais de excitação catatônica, a se bater incontrolavelmente em recusa da realidade. Alguns grupos e indivíduos mais apegados a interesses imediatos, não conseguem sequer prestar atenção ao que está se passando ao redor.

Um dos pontos mais críticos dessa situação é a prevalência de velhos e novos princípios morais, disfarçados de ideologia, que cobram uns dos outros o que não os satisfaz, em uma acirrada guerra de pecados. Surpreendente é que nessa troca de farpas e de acusações indecorosas, até alguns grupos que se dizem de vanguarda, mostram-se conservadores, quando fora do perímetro dos seus umbigos.

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As circunstâncias se revelam perturbadoras, com a população pressionada a ficar entre quem se acha “uma ideia” e os que não têm ideia alguma a propor. Esse espectro é muito amplo e muito vago. Uma pesquisa qualitativa, realizada no ano passado (2017) pela Fundação Perseu Abramo – entidade acadêmica petista, – revelou que os ex-eleitores do partido, entrevistados na periferia de São Paulo, associam Lula a Sílvio Santos e João Doria.

Isso mostra o quanto a aposta no consumismo deixou para trás premissas formadoras de consciência social, aproximando esquerda e direita nos métodos de conquista, manutenção e recuperação de poder. Restringir a agenda nacional ao âmbito dessa briga de varejo partidário, tem sido a estratégia dos que pouco estão pensando em reconstituir o sentido de destino que se perdeu no Brasil.

A série televisiva O Mecanismo, dirigida pelo cineasta José Padilha para a Netflix (2018) surtiu toda sorte de polêmica com relação as alusões que faz a implicados na Operação Lava Jato. A somatização das reprimendas está tão acentuada que a atribuição de uma frase a um personagem, quando ela teria sido dita por outro político na vida real, recebeu mais protestos do que o argumento lesivo de que a corrupção brasileira é endêmica.

Exposto a esse autoengano, o País passa por um massacre moral comparável ao sofrido pelo Paraguai depois da guerra (1864 a 1870) em que Argentina, Uruguai e Brasil, patrocinados pela Inglaterra, se uniram para destruir a então maior potência da América do Sul. Agora é a vez de, sob os auspícios estadunidenses, o estigma de gente desonesta e indigna recair sobre os brasileiros, como punição pela ousadia do Brasil em sua efêmera inserção internacional.

Mesmo salteada por uma maioria de falsos políticos, negociantes da fé, narcotraficantes, agentes da indústria bélica, promotores de serviços de segurança e outros vendedores de ilusão, a democracia é, simultaneamente, a possibilidade e a impossibilidade de retomarmos a percepção do nosso sentido de destino. E não dá para evoluir politicamente enquanto a cidadania for confundida com simples e apressadas reações emotivas.