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Meus segredos com a Dona Zefinha

01:30 | 13/03/2018

As comemorações pelos 25 anos da Dona Zefinha trazem um sabor muito especial para mim, tanto pela admiração que tenho pelo trabalho criativo desse grupo cenomusical itapipoquense quanto pelo contentamento de ser um dos seus parceiros nessa jornada de afazeres artísticos, múltiplos como a própria vida.

 

Ora dando alguma contribuição ao trabalho deles, ora eles contribuindo com o meu e, em várias circunstâncias, fazendo coisas juntos, somos uma aliança de complementaridades para realizações no campo da produção independente. Eles fazem shows e dão oficinas, enquanto eu trabalho a combinação de literatura com música.

Temos em comum o anseio de nos mover por encantamentos, mesmo em um mundo desencantado. Alegra-me a inquietação, a curiosidade e a vontade que eles têm de dar alguma medida de ilusão na invenção do real. A Dona Zefinha anda em trilhas e não em trilhos. E isso me entusiasma.

Nossa relação começou há duas décadas, quando eles ainda eram a Trupe Metamorfose. A convite do sociólogo e fotógrafo Marcos Vieira fui a Itapipoca fazer uma palestra sobre Música Plural Brasileira na Faculdade de Educação (Facedi/Uece), e ele me apresentou ao Orlângelo Leal, diretor do grupo, que me surpreendeu tocando músicas deles e minhas.

Quando eles fizeram o disco Zefinha vai à Feira (2007), fui incumbido de apresentar em textos expressionistas cada uma das doze faixas desse trabalho que marca o caráter circense, de teatro de rua e musical do grupo. No mesmo ano, contei com o Orlângelo em duas parcerias para o meu livro A Festa do Saci, inclusive na música de abertura das ilustrações musicais. Sem contar que eles têm sido excelentes parceiros de sacizadas.

 

Nos três anos seguintes tive a satisfação de ver a banda Dona Zefinha em turnê com um espetáculo infantil composto de músicas dos livros Flor de Maravilha e A Festa do Saci: da Praça do Ferreira ao Centro Dragão do Mar, passando pelo projeto de circulação do Centro Cultural Banco do Brasil, Bienal do Livro e pelo quintal do Centro de Referência à Infância (Incere), por ocasião do lançamento do livro Eu era assim.

Foi também nas pegadas desse livro sobre Infância, Cultura e Consumismo que me vali da Dona Zefinha para o lançamento no Teatro Brincante, em um palco compartilhado com Antônio Nóbrega. No show do livro A Casa do Meu Melhor Amigo (2010), no Museu de Arte Moderna (MAM), o Orlângelo Leal, que fez comigo a música de abertura das ilustrações musicais, colaborou mais uma vez, dividindo com a cantora Ná Ozzetti a participação especial.

E quando eles decidiram criar Os Bufões, a versão infantil da Dona Zefinha, fiquei feliz por ter duas composições no repertório do disco O Circo Sem Teto da Lona Furada (2012). Em 2014, contei mais uma vez com eles na interpretação das ilustrações musicais do livro Invocado (que rendeu três anos de shows envolvendo artistas como Fanta Konatê, Suzana Salles e Evaldo Gouveia), e, em 2017, o Orlângelo marcou presença com uma parceria na trilha sonora do livro Bulbrax.

O segredo dessa aliança tão duradoura e produtiva me parece ser a ausência de ciúmes (nenhum de nós se sente proprietário do outro), o cuidado para não se deixar contaminar pelos que sofrem com o êxito da nossa cumplicidade, a firmeza do propósito, a franqueza e o espírito fraterno.