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Ato da campanha Doria em Fortaleza

17:00 | Ago. 19, 2017
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Foi um clássico e típico evento de político em pré-campanha presidencial. No alto das dunas da Praia do Futuro, o azul do mar ao fundo, o nome João Dória em letras garrafais estampadas com o verde e amarelo da bandeira figurava o pátio que antecedia a entrada do salão onde o encontro ocorreu.

Sol a pino. Por trás das letras, pose para fotos. Doria sozinho. Tasso com Doria. Doria com Geraldo Luciano. Doria com Beto Studart. Doria com os empresários que bancaram o evento. Lá dentro, no ar-condicionado, cerca de 300 convidados em pé, à espera, servidos com acepipes e bebidas. O convite dizia “blazer sem gravata”, um uniforme bem doriano.


Nas conversas dos espectadores (jornalistas, empresários, profissionais liberais), os temas proeminentes eram negócios, economia brasileira, candidatura Doria e o polêmico programa do PSDB na TV que havia ido ao ar na noite anterior. Esse último ponto gerando muitas opiniões controversas.

Começa o evento. Mesas redondas, pratos postos com uma entrada e serviço de bebidas. O microfone é aberto. Beto Studart, presidente da Fiec, o primeiro a falar. Tratou Dória como fato consumado na linha: é candidato e será eleito. Com fala de improviso, dirigiu-se ao prefeito de São Paulo para lembrar que o Ceará precisará de políticas públicas para combater as desigualdades.

Na sequência, o presidente da CDL, Severino Ramalho Neto, leu seu discurso. Procurou ser sóbrio e politicamente amplo. Deu boas vindas ao convidado, porém gastou mais saliva elogiando Tasso Jereissati. Sobrou loas para Camilo Santana e Roberto Cláudio. Jogou todos em um só balaio e os denominou de “inovadores”. Como quem diz: meu santo mercadinho é de todos.

O ralo prato principal já começara a ser servido.

Chegou a vez da fala de João Dória. Alguém me perguntou: “Ué, o Tasso não vai falar não?”. Pois é, o anfitrião mais importante do correligionário paulistano se recolheu em seu lugar à mesa. Não falou. Pelo visto, o presidente nacional interino do PSDB não quis se comprometer a fundo com o encontro meticulosamente preparado para ser um ato de campanha presidencial.

O silêncio do senador Tasso e seus comentários protocolares dirigidos aos jornalistas podem ser vistos como um sinal de que Geraldo Alckmin, o governador de São Paulo, é um dos únicos tucanos de bico grosso que apoia o conteúdo do polêmico e criticado programa do PSDB na TV. Tasso, sentado estava, sentado, ficou. Ao lado dele, o executivo (já será tucano?) Geraldo Luciano.

E a fala de João Dória? Bom, é um capítulo à parte que fica para o próximo tópico.
 

DOMÍNIO DO PALCO E DAS REDES SOCIAIS
A essa altura, é provável que a maioria dos leitores já conheça o teor do discurso do prefeito de São Paulo na tarde de sexta-feira, em Fortaleza. Afinal, toda a imprensa lá estava e fez os registros mais apimentados.

Logo depois do evento, o portal do O POVO já trazia trecho que também foi reproduzido pelo jornalismo on line Brasil a fora: “Sem-vergonha, preguiçoso, mentiroso e covarde... Aprenda de vez que o Brasil não é seu. Venha aqui disputar eleição, com quem estiver, porque você vai perder. O Brasil das pessoas de bem saberá dar uma resposta nas urnas”, disse o prefeito acerca de Lula, seu alvo preferencial.

O evento recebeu o gracioso batismo de “I Fórum Empresarial de Gestão”. Balela. Foi política do começo ao fim. Doria não usou um segundo de sua fala para falar de seu modelo de gestão ou de políticas públicas. O objetivo ali era empolgar a audiência, envolvê-la e tentar mostrar que ele é sim o candidato que o PSDB precisa escolher em 2018.

Claro que tratou de elogiar o padrinho Alckmin. Não ficaria bem se não o fizesse, mas o tom protocolar jorrou. Detalhe: ao citar outro Geraldo, o Luciano, o prefeito o tratou de forma diferenciada, aconselhando-o a seguir adiante em seu sonho. “Quem sabe, na política”. Detalhe: antes do evento, Doria e Tasso conversaram a sós.

Como já dito antes, o conteúdo da fala de Dória foi amplamente divulgado pela imprensa. Trata-se de algo já conhecido por quem acompanha o político que se tornou um mestre no uso das redes sociais. Porém, o formato de seu discurso e a maneira como se dirigiu ao público merece menção à parte.

Todos sabemos que Dória é um experiente comunicador. Assim como Ronald Reagan se notabilizou na política pelo pleno domínio da TV, o veículo que reinava nos lares norte-americanos e do mundo inteiro nas décadas de 1970 e 1980, Doria domina o palco, o microfone, a plateia e os celulares nas mãos de cada convidado.

Sua fala começou no palco. Em poucos minutos, desceu e passou a circular entre as mesas para deleite daqueles que o veem como a melhor aposta. Seu discurso é milimétrico. Não joga palavras fora. É duro e firme. Às vezes, agressivo. O tom sobe e desce de acordo com a emoção que busca dar ao conteúdo.

Claro que um item fundamental da fala precisava ser repassado aos ouvintes. Para quem o aponta como janota, riquinho e nascido em berço de ouro, Doria repassa a vida de quem teve o pai cassado e exilado pela ditadura. Conta a necessidade de ir para o mercado de trabalho aos 13 anos para ajudar a mãe que virara arrimo da família.

De quebra, fala de seu DNA nordestino. Seu pai baiano. Conta que administra a “segunda maior cidade do Ceará”. Afinal, cearenses e seus descendentes formam cerca de 5% da população paulistana.

Por essas e por outras, principalmente quando citava o “desastre” PT, arrancou seguidos aplausos. Ao fim, ao som do tema de Airton Sena (creiam!), a animada plateia ficou a aplaudir. De pé.

Pronto. O objetivo de João Doria em Fortaleza fora plenamente alcançado.
 

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JORNALISMO
A decisão de João Doria visitar Fortaleza se deu a partir de um convite feito pelo jornal O POVO. O prefeito aceitou o convite e aproveitou para mobilizar sua tropa através do Lide, que é um de seus negócios. Atrair Fiec e CDL para bancar o, digamos, ato político, não foi assim uma grande dificuldade. O projeto de cobertura do O POVO agenda convite para que todos os pré-candidatos mais relevantes da disputa presidencial de 2018 participem de eventos similares no Ceará.

ESTILO MAIA
A surpresa do evento com Doria foi o secretário de Planejamento de Camilo Santana, Maia Júnior, que quebrou o protocolo e pediu a palavra. Os que conhecem Maia sabem que a emoção costuma atropelar a razão. O tucano que trabalha no Governo do PT fez uma ardorosa defesa de Tasso Jereissati, que, naquele momento, era duramente atacado por seus próceres nacionais por causa do programa de TV do partido. Detalhe: presidente interino do PSDB, Tasso declarou que fez o programa à sua imagem e semelhança, sem consultar o conjunto do partido. Bom, quem faz isso está com um pé dentro e outro fora.

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