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A trincheira que o Ceará se torna

2019-01-15 01:30:00
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Sinalizações políticas importantes surgem da atual crise da segurança pública. A parceria entre o Governo do Estado e o Governo Federal, apesar das divergências políticas e partidárias, e o apoio de vários estados que mandaram policiais em socorro do Ceará são indicativos também para os criminosos. Os gestos mostram às facções a disposição dos vários entes federativos de se unirem contra elas.

 

A ação dispersa, pulverizada dos órgãos públicos, ajuda o crime. Picuinhas politiqueiras jogam a favor das facções. O enfrentamento conjunto é a única alternativa para combater organizações que atuam em rede e têm abrangência até internacional.

 

O efeito dos ataques periga se espalhar em cadeia. Já aconteceu antes. O Ceará sofreu antes consequências de conflitos que começaram no Amazonas, por exemplo. Se a crise aqui não for contida, pode respingar em outros lugares. Até por isso a importância da aliança interestadual contra os criminosos. O indicativo de que haverá uma resposta conjunta.

 

Motivo pelo qual, também, a reação precisa ser firme e implacável. A transferência de chefes de facções, o isolamento de comunicações dentro dos presídios é crucial. O recado precisa ser dado.

 

A colaboração entre o governo petista de Camilo Santana e a administração Jair Bolsonaro (PSL), a despeito de algumas declarações atravessadas, também é importante. Qualquer divisão em relação a esse assunto ajuda os criminosos. Indicativo de que a política pode ser obstáculo ao entendimento é sinal para eles de fragilidade do poder público.

 

A Assembleia Legislativa também deu indicativo importante. Ao se reunir no recesso, num sábado, ao longo de mais de seis horas. Houve muito debate, discordâncias. Mas, ao final, chegou-se a texto aprovado por unanimidade. Essa sinalização também é importante. As facções precisam perceber que todos os entes do Estado trabalharão em conjunto contra elas.

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O momento é absolutamente crucial e inadiável. O Ceará é agora trincheira de um combate muito além de suas divisas. A onda de violência refluiu, mas esse não é momento de interromper o enfrentamento, ao contrário. É preciso persistir para atacar e desestruturar os alicerces das facções. O momento é,  nacionalmente, estratégico para combater esses grupos criminosos.

 

Calhou de a ocasião se dar em um estado administrado pelo PT. No momento em que Bolsonaro é presidente. Camilo é governador porque a população assim decidiu. Pelo mesmo motivo Bolsonaro é presidente. Por vontade democrática cabe a eles liderar esse momento chave.

 

O Exército das facções

 

Chegou ontem a 360 o número de presos em 13 dias de ataques. Média de 27 presos por dia. Para participar de ações criminosas, submeter-se ao perigo e correr considerável risco de prisão, os envolvidos receberam pagamentos na casa de R$ 1 mil, segundo depoimentos.

 

O valor é relativamente baixo para o tamanho do perigo e para a probabilidade de prisão. O que demonstra um problema crucial: ao que tudo indica, os envolvidos nessas ações não têm medo de serem presos. Não é algo que os deixe inibidos.

 

Não são chefes, muitas vezes nem mesmo membros de facções que praticam as ações. São recrutados jovens, moradores de rua. Recebem alguma coisa e tomam parte numa orquestração que espalha terror. Quem comanda não se expõe. Muitos dos presos têm relação incipiente com grupos organizados. O envolvimento com as facções corre risco de se aprofundar no presídio. Eles podem sair ainda mais perigosos.

 

Daí a importância de separar os detidos conforme o grau de perigo que realmente representam. Na atual situação do sistema prisional, isso é muito difícil. De modo que as cadeias se tornam etapa de formação e aperfeiçoamento de criminosos. Outro dos desafios do secretário Mauro Albuquerque.

Érico Firmo

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