Houve erro de comando em Milagres
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Houve erro de comando em Milagres

2018-12-11 01:30:00
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Diante das primeiras informações sobre a morte de inocentes no massacre de Milagres, estava na cara que grande trapalhada houvera. Minha dúvida é se estão procurando o problema no lugar certo. O governador Camilo Santana (PT) anunciou o afastamento de 12 policiais envolvidos no episódio. Não ficou claro qual o papel dos afastados na operação. Para ocorrência na qual oito membros da quadrilha morreram e outros três foram presos, e considerando o calibre dos armamentos usados, 12 policiais é pouca gente para a operação. 

 

Diante disso, qual o papel dos afastados? No O POVO de sábado, o repórter Demitri Túlio revelou aquilo que o secretário André Costa reconheceu no Fantástico, no domingo: a Polícia não sabia da presença de reféns. Esse é erro enorme e fundamental. A informação era precária e norteou estratégia errada. Pelas informações disponíveis, não me parece que o erro determinante tenha sido de quem puxou o gatilho, mas de quem planejou a operação. Terá sido afastado?

 

Criminosos não fazem reféns para matá-los, mas para evitar serem mortos. Se reféns morreram, a operação fracassou. Fracasso em todos os aspectos, como bem definiu o procurador-geral de Justiça, Plácido Rios.

 

Relatos indicam que ao menos uma entre os reféns teria sido morta por policiais, conforme testemunha disse ao Sistema Verdes Mares. Mesmo que isso não tenha acontecido, mesmo que os reféns tenham sido mortos pelos criminosos ao serem confrontados pelos policiais, a operação foi desastrada. Já escrevi e repito: em ocorrência com reféns, nada importa mais que a vida dos reféns. Nesse sentido, o cerco precisa ser cauteloso. A abordagem não pode ser direta. Por vários dos comentários que recebi, parece que muita gente acredita que era mais importante matar os criminosos que salvar a vida dos reféns. Uma óbvia inversão de prioridades.

 

Já no caso de tiros que mataram reféns terem partido de policiais - se inocentes foram confundidos com assaltantes de banco - aí a coisa se torna incomparavelmente pior. Isso não é difícil descobrir. Exames de balística podem trazer essa constatação logo, logo.

[FOTO1]

O papel do governador

 

Em seu primeiro ano, Camilo Santana teve enorme desafio a administrar com a chacina da Grande Messejana. As investigações confirmaram o que se desconfiava: policiais seriam os autores da matança sem precedentes até então. Houve investigações sérias, independentes, apesar da intensa pressão. Agora, Camilo termina o primeiro mandato com outro desafio.

 

Não há motivo para acreditar em dolo, mas erro está claro que houve. Falta saber de quem e de que tamanho. O governo Camilo agiu de forma correta em relação à chacina de 2015. Terá agora novo teste.

Repercussão e respostas

 

Ocorrência com mortes de tantos reféns só poderia ter a repercussão mundial que alcançou. A pressão por respostas será intensa - em particular por parte dos pernambucanos. Os laudos serão cruciais. Pela velocidade com que tantos corpos foram liberados - sepultamentos ocorreram no sábado - espero que o trabalho tenha sido tão criterioso quanto necessário.

 

A informação

 

O governador lamentou as declarações infelizes da sexta-feira, no que fez muito bem. Disse que foi mal interpretado pela imprensa, sempre nós. (Neste link está a pergunta e a resposta completa do governador. Você e Camilo podem ouvir o que ele disse e chegar às próprias conclusões: bit.ly/falacamilo).

 

Uma coisa tinha comentado e está evidente: no fim daquela manhã, o governador não tinha informações mínimas sobre o que aconteceu na madrugada. É estranho e levanta a questão se não foram sonegados dados a Camilo. Isso já aconteceu por parte das forças de segurança, por exemplo, na greve de 2012.

 

Como pode, àquela altura, o governador não saber sobre reféns - notícia que estampava portais do Ceará e de Pernambuco àquela hora? Se informações não foram repassadas a Camilo, é sinal de que havia consciência de que algo de muito errado havia ocorrido.

Érico Firmo

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