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Violência política é sintoma de um País doente

01:30 | 12/10/2018

A forma como o segundo turno transcorre no Brasil corresponde e até supera as projeções mais pessimistas. A situação está fora de controle. Os dois candidatos que disputam segundo turno têm feitos acenos conciliadores, na tentativa de atrair os eleitores moderados. Ocorre que o querosene atirado nas labaredas do primeiro turno não está sendo contido. Momento crucial da campanha até aqui, a facada em Jair Bolsonaro (PSL) foi capítulo já avançado de uma disputa extremada. O diálogo foi obstruído e, como opostos se encontram o tempo todo na rua, a coisa descamba para violência.

 

O caso mais extremo, absurdo, inaceitável foi o assassinato do mestre de capoeira Romualdo Rosário da Costa, conhecido como Moa do Katendê, em um bar de Salvador (BA). Ele foi morto ao fazer a defesa do candidato Fernando Haddad (PT) durante discussão.

 

Foi o ponto culminante de dezenas, dezenas de episódios. Levantamento da Agência Pública, catalogado pela Open Knowledge Brasil, aponta pelo menos 70 agressões relacionadas a política no intervalo de 10 dias. Foram ao menos 50 agressões cometidas por apoiadores de Bolsonaro, seis contra eleitores de Bolsonaro e outras 15 em situação indefinidas. Um completo absurdo, inaceitável. Uma violência contra a democracia.

 

O erro e o acerto de Bolsonaro

Bolsonaro foi vítima de forma terrível dessa violência. Ponto. Não cabe nenhuma forma de minimizar ou justificar aquele atentado. Por outro lado, também não pode servir de escudo para deixar de encarar a evidência do número de agressões cometidas pelos apoiadores do candidato. A primeira manifestação dele a esse respeito foi o suprassumo da infelicidade.

 

Na terça-feira, classificou agressões como "um excesso". Resignou-se na sua impotência de frear os episódios. "O que tem a ver comigo? Eu lamento, e peço ao pessoal que não pratique isso, mas eu não tenho controle".

 

Quantos erros em uma coisa só. Para começar, mestre Moa do Katendê foi assassinado com 12 facadas. Em Curitiba, o jornalista Guilherme Daldin foi atropelado de forma criminosa e aparentemente deliberada, por motorista que fugiu sem prestar socorro. Daldin usava camisa vermelha com imagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Também em Curitiba, o estudante Calil Purt foi agredido por seis homens quando usava camisa camisa vermelha e chapéu do MST. Daria para continuar por várias colunas.

Moa do Katendê, assassinado com 12 facadas por desavença política REPRODUÇÃO
Moa do Katendê, assassinado com 12 facadas por desavença política REPRODUÇÃO
 

Bolsonaro questiona o que tem a ver com isso. No dia 1º de setembro, em Rio Branco, ele disse: "Vamos fuzilar a petralhada toda aqui do Acre". É o tipo de coisa que me parece com incitação a violência.

 

Depois da desastrada fala oficial, Bolsonaro saiu-se melhor, muito melhor, no Twitter. De tudo que ele já disse na vida, talvez tenha sido a coisa mais lúcida. "Dispensamos voto e qualquer aproximação de quem pratica violência contra eleitores que não votam em mim. A este tipo de gente peço que vote nulo ou na oposição por coerência, e que as autoridades tomem as medidas cabíveis".

 

Obviamente, a fala veio após o desgaste com a manifestação da véspera. Mas é a sinalização necessária: o afastamento dessa gente. Bolsonaro teve quase 50 milhões de votos. Obviamente que os autores de episódios de violência são franca minoria. Caso contrário, o Brasil estaria em permanente guerra civil. Muitos dos eleitores de Bolsonaro, certamente, elegeram e reelegeram candidatos do PT. O repúdio imediato, veemente e sem vacilação aos crimes que se espalham por pelo menos 18 estados do Brasil são, inclusive, forma de não permitir que esse contingente de eleitores seja confundido com os bandidos da intolerância social e política.