Um na cadeia, outro na cama de hospital
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Um na cadeia, outro na cama de hospital

2018-09-19 01:30:00
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A pesquisa Ibope divulgada na noite de ontem confirmou a impressionante ascensão de Fernando Haddad (PT). Ele é a onda da vez na eleição presidencial. Chega a ser assombrosa a capacidade de transferência de votos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Nunca antes na história deste País - talvez de qualquer outro país - um detento foi capaz de impulsionar a esse ponto um candidato. Lula elegeu Dilma, é verdade, mas foi trabalho de quatro anos. "Mãe do PAC" e aquele negócio todo. Haddad virou candidato na semana passada. Não participou de um debate até agora. Só na sexta-feira passou a ir às sabatinas. O lulismo, com Lula preso, está a protagonizar um de seus feitos mais impressionantes.

 

Haddad deu um salto, enquanto Bolsonaro segue sua toada de crescimento lento e contínuo. Especulava-se se teria chegado ao teto, se iria ser esvaziado durante a campanha. Nada disso aconteceu. Ele resiste e sobe com impressionante consistência. Não houve um salto imediatamente após o atentado. Mas, em 12 dias desde então, cresceu seis pontos. Cresceu uma Marina Silva (Rede). Isso de uma cama de hospital.

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A onda Haddad

Desde a oficialização da candidatura, Haddad cresceu 13 pontos. Ele é a onda do momento. Vai virar a bola da vez e alvo dos demais. Mas o petista e o PT têm uma vantagem: foram tantas denúncias, tantos escândalos, tanto noticiário negativo nos últimos quatro anos que tudo isso já está absorvido. O que for dito sobre Lula receber dinheiro, Haddad ser favorecido, sobre corrupção, nada disso soa novo, diferente de tudo que já se ouviu. É difícil minar Haddad com isso.

 

Pesará mais contra ele o impacto da lupa sobre a gestão na Prefeitura de São Paulo. Foi muito mais bem avaliada fora do que por quem vive e vota na Capital. Não foi apenas uma derrota. Foi uma surra desqualificante.

 

Tiro no pé

É irônico, embora não de todo surpreendente, que todo o processo de crises, a operação Lava Jato, o impeachment de Dilma Rousseff (PT) e a prisão de Lula tenham conduzido o Brasil a este momento: o PT no páreo para eleger o presidente pela quinta vez seguida, Dilma caminhando célere para ser eleita senadora, enquanto o PSDB naufraga, o MDB nem zarpou, Marina Silva (Rede) encolhe e Bolsonaro ascende como o novo representante da direita no País. O resto que havia desmoronou e levou junto o centro.

 

Muito se discutiu, e eu também, sobre como a história contará o impeachment de Dilma. O PT e seus aliados construíram a narrativa do golpe. Os condutores do processo falaram da necessidade de afastar um governo que conduziu o País à crise. É precoce dizer qual versão prevalecerá.

 

Mas a eleição até aqui antecipa uma terceira opção para o que foi o impeachment: um monumental tiro no pé dos que o engendraram.

 

Tasso Jereissati (PSDB) disse mais ou menos isso na semana passada. E, em 17 de fevereiro do ano passado, eu escrevi: "A ambição raramente é paciente. Os grupos que hoje governam o País apressaram-se em tirar Dilma. Tivessem esperado até 2018, provavelmente teriam no adversário um partido absolutamente débil, sem chances".

 

O quadro mudou. Os autores do impeachment são, no quadro de hoje, cartas praticamente fora do baralho do jogo sucessório. O PT é a onda da vez.

 

Mas o papel de PSDB, MDB e seus pares ainda não terminou. Caberá a eles, na escrita da própria trajetória desse processo, um provável último ato: escolher entre se aliar ao inimigo PT no segundo turno ou respaldar Jair Bolsonaro.

 

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