Fatos que esquentam uma campanha fria
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Fatos que esquentam uma campanha fria

2018-08-24 01:30:00
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A execução de três policiais em um bar da periferia de Fortaleza, em plena luz do dia, dá medida do grau de ousadia, afronta ao qual chegou o crime. Foi um ataque direto, brutal, acintoso, intimidador aos profissionais de segurança. Ao Estado. O que ocorreu foi lastimável, uma terrível tragédia humana. Porém, há os desdobramentos políticos.

 

A coluna de ontem mencionou o quanto Camilo Santana (PT) dava sinais de empurrar a campanha com a barriga. Episódios como o de ontem são daqueles capazes de esquentar uma campanha. Não, não digo a ponto de abalar o favoritismo do governador para a reeleição. Uma coisa que os governantes tiram de bom dos seguidos anos de violência desmedida é que a população parece já anestesiada. Mesmo índices tão absurdos de criminalidade não parecem mais ter impacto político significativo. Porém, é inevitável que o governador fique pressionado.

 

O caso lembra a eleição de 2010, quando ocorreu o caso Bruce. Policial do Ronda do Quarteirão atirou na nuca de adolescente de 14 anos, numa ação desastrada e absurda. Não evitou que Cid Gomes fosse reeleito no primeiro turno, mas foi uma marca na campanha.

 

A execução a sangue frio registrada ontem ocorre em momento em que, depois de comer o pão que o diabo amassou, os índices de criminalidade começaram devagarinho a melhorar. O secretário André Costa, eficaz arma de Camilo para neutralizar Capitão Wagner (Pros) e reduzir a rejeição perante a tropa, não tinha se manifestado até o fechamento da coluna. Estava estranhamente calado. O próprio governador, tão assíduo nas redes sociais, foi tímido na manifestação. Limitou-se a falar do assunto em entrevista de campanha que já estava marcada na TVC. Em momentos de crise, o silêncio das autoridades não é bom sinal.

 

Não sei se esse episódio irá introduzir o mínimo de competitividade que a pesquisa não mostrou nessa campanha. É difícil que isso aconteça de forma significativa. A diferença é muito grande e o eleitor não escolhe com base em fatos isolados. Porém, é certo que o episódio de ontem estará no horário eleitoral que começa daqui a uma semana. Será assunto nos debates por vir, esteja presente o governador ou não.

 

Pode não ser decisivo, pode não mudar os rumos, mas a campanha no Ceará tem seu primeiro grande tema. Infelizmente, num assunto que tem sido tão recorrente.

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A calma necessária

Episódios como o de ontem são traumáticos, sobretudo para os colegas de trabalho das vítimas. Gente cuja profissão embute risco de vida a todo momento, inclusive quando não se está trabalhando. O estado de nervos é desafio permanente e é preciso buscar garantias mínimas, dar a mais elementar tranquilidade. Foi muito importante a prisão dos possíveis responsáveis. Importante para garantir que sejam punidos, caso confirmada a culpa. Que paguem pelo que fizeram, conforme preceitua a lei. Isso é muito importante.

 

Risco em momentos como esse é de o comando perder a autoridade e o controle da tropa. E aí, buscar-se saídas heterodoxas. É dever do comando manter a calma dos policiais. Vale lembrar como começou a Chacina da Grande Messejana, mais funesto momento da história das forças de segurança do Ceará. Num momento em que se deixou de acreditar na lei e nas instituições, começou vingança absurda, arbitrária e que fez vítimas inocentes.

 

O crime precisa ser punido com lei, não com outro crime. Qualquer coisa diferente disso tem como maior vítima as próprias forças de segurança pública. Nada pior para o poder público que quando policiais agem como aqueles que devem combater. O momento é traumático e, por isso mesmo, exige serenidade. A convicção de que é a lei que os separa e diferencia dos bandidos.

 

Ciro e Bolsonaro, Hélio e Camilo

Candidato de Jair Bolsonaro (PSL) no Ceará, Hélio Góis (PSL) criticou Camilo Santana (PT) por não ir ao debate da TV Jangadeiro, na quarta-feira. Na quinta-feira, Ciro Gomes (PDT), aliado de Camilo, criticou Bolsonaro pela declaração do presidente de seu partido de que ele não iria mais a debates. Depois, Bolsonaro disse que talvez vá, se não atrapalhar a agenda. Agenda que foi o argumento de Camilo para faltar.

 

Érico Firmo

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