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A costura de Camilo

2018-07-19 01:30:00
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Desde terça-feira à noite, Camilo Santana (PT) abriu oficialmente as negociações de sua complicada chapa eleitoral, em reunião com mais de cem prefeitos. Ontem à noite, teve encontro com deputados estaduais e federais. Comentei ontem o quanto as questões estão em aberto, na semana em que começam as convenções. Na base aliada, as conversas se afunilam.

Na manhã de ontem, Camilo participou do programa O POVO no Rádio, na rádio O POVO/CBN, apresentado pelo jornalista Luiz Viana. Em seguida, concedeu entrevista a jornalistas de diversos veículos do Grupo de Comunicação O POVO. A menos de um mês do início da campanha, foi mais explícito que em qualquer declaração anterior sobre eleição. Deixou claras suas intenções e deu indicações importantes sobre a condução que pretende dar ao processo.

AS CANDIDATURAS AO SENADO

A relação com Eunício Oliveira (MDB) é o ponto mais delicado. Nenhum aliado tem aberto tantas portas e ajudado tanto Camilo. Mas, nenhum sofre tanta rejeição na base. Sobre isso, o governador começou a entrevista ontem com a conversa de sempre. Disse que tem sempre agradecido ao que o senador tem feito pelo Ceará. Lembrou que foram adversários, mas que tomou a iniciativa de procurá-lo e encontrou as portas abertas. Esse é um primeiro ponto importante. Ao deixar claro que partiu dele, Camilo, a iniciativa da aliança, o governador deixa na entrelinha que não seria gesto dos mais elegantes desprezar agora aquele de quem correu atrás.

Indaguei a Camilo, então, se há ambiente para, em menos de um mês, ele e Eunício - que fazem juntos de tabelinha no futebol a oração - estarem em chapas antagônicas, trocando críticas e pedindo voto um contra o outro. Confesso que a clareza com a qual o governador respondeu me deixou surpreso. “Bom, de forma alguma”. Ele falou isso um pouco baixo e, enquanto me perguntava se havia entendido direito (a gravação confirmaria), ele prosseguiu: “Acho que a tendência natural desse processo é um apoio ao senador”.
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A FORMA COMO SE DARÁ O APOIO

Na sequência da frase, Camilo foi mais fiel ao seu estilo. Falou pelos não ditos. Ainda sobre o apoio a Eunício: “Vamos discutir isso, de que forma isso poderá ser construído”. Pode parecer mero palavreado político de que isso e aquilo é uma construção. Porém,em conjunto com outras declarações, a frase ganha significado extra.

O colega Carlos Mazza indagou se há hipótese de o PDT ficar fora da aliança formal de Camilo. Por exemplo, por não aceitar composição com Eunício, lançar-se fora da chapa oficial. A resposta: “Não, não há possibilidade”. Mazza, então, indagou o mesmo sobre o MDB: poderá Eunício concorrer com apoio de Camilo, mas sem coligação formal? O governador respondeu: “Vamos... vamos... vamos construir”. A certa hesitação de Camilo na resposta fala tanto quanto as palavras. Talvez mais.

Ou seja:

 

1) Camilo quer apoiar Eunício. Diria até: Camilo vai apoiar Eunício.

2) O PDT, que não quer se aliar a Eunício, não ficará fora da chapa oficial em hipótese alguma.

3) Sobre o MDB ficar na chapa Camilo já não garante.

Mas, o governador disse mais: “É preciso respeitar as divergências, respeitar as opiniões diferentes”. E ainda: “Sou pessoa que acha que tudo se constrói a partir do diálogo”. São frases vazias fora do contexto. Mas, o contexto é: os Ferreira Gomes não querem se aliar a Eunício nem por decreto. O governador tem lá seu débito com o senador, mas a caderneta dos Ferreira Gomes é muito mais rechonchuda.

Minha impressão depois da conversa de ontem: Eunício terá apoio governista. Mas, salvo lábia descomunal de Camilo, não haverá coligação formal com ele. Não deixa de ser um risco para o senador. Está longe de ser a condição que ele deseja. Mas, que opção tem o MDB?

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