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O presidente virou candidato

2018-03-24 01:30:00
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Michel Temer (MDB) vai mesmo concorrer à reeleição. Desde que os dois mandatos consecutivos passaram a ser permitidos, todos os antecessores tentaram e conseguiram. Nenhum estava em situação tão ruim a essa altura do ano eleitoral. Mas, também não havia nenhum com cenário tão confuso à frente. Com a força da máquina, não é tão difícil ele chegar a um patamar que o coloque no segundo turno. Porém, precisará melhorar muito. Se isso não ocorrer e ele seguir no atual patamar, será dos mais vexatórios constrangimentos já impostos pela população a um governante.


Temer não podia mesmo adiar a definição. Sem sinalizar perspectiva de poder, a base estava se esfarelando. Ok, a candidatura dele ainda precisa mostrar que é competitiva e nada garante isso. E várias outras perguntas surgem: 1) Henrique Meirelles (PSD) ainda mantém sonho de ser candidato? Duvido. 2) E Rodrigo Maia (DEM)? Provavelmente. Como fica a relação entre eles? O tempo dirá.


Temer sempre se vangloriou da impopularidade como trunfo. Dava liberdade a ele de tomar medidas polêmicas, como a reforma da Previdência — que não saiu, aliás. Agora, precisará correr atrás do apoio popular que renegou. Tem como âncora a segurança pública, um ministério nessa área que ninguém ainda sabe ao certo o que fará e uma ocupação federal no Rio de Janeiro que é questionada mundialmente.

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MARIELLE E O PAPA

Já comentei neste espaço que muita gente reagiu indignada com a comoção - isso mesmo, indignada com a comoção - pelo assassinato da vereadora Marielle Franco. Reclamam por que não se reage assim com todas as vítimas de violência.

Nesta semana, o papa Francisco telefonou para a mãe de Marielle para prestar condolências. É capaz de agora ter gente cobrando que o pontífice ligue também para as mães de todas as dezenas de milhares de vítimas de violência no Brasil. Quiçá do mundo. Porque, se ele não fizer isso, talvez alguém pense que é melhor o papa não telefonar para nenhuma mãe, não prestar solidariedade a ninguém.


REAÇÃO INTERNACIONAL

Ecoou pelo mundo a revolta com crime tão cheio de terrível simbolismo. A atriz americana Viola Davis publicou mensagem de solidariedade em suas redes sociais. A cantora e compositora americana Katy Perry fez homenagem a ela durante show no Rio de Janeiro. Quando se contrapõe a postura internacional com a controvérsia absurda instaurada no Brasil, dá até vergonha. Quando os detratores, com as mais rasteiras, politiqueiras e mesmo criminosas motivações, chegam ao ponto de inventar caminhão de mentiras contra a vítima, tem-se vexame mundial.

 

Há quem ache que o sentimento em torno de Marielle se limita ao fato de ela ser vereadora do Psol. Bom, se o partido tivesse esse poder todo de mobilização, provavelmente elegeria grandes bancadas e estaria em vários governos. E, quem sabe Katy Perry, Viola Davis e o papa sejam todos psolistas.


Quando Marielle morreu, lembrei de Chico Mendes. O seringueiro, sindicalista e ambientalista comprou brigas, denunciou, fez inimigos. Meteu-se em causas muito polêmicas, diriam certos parlamentares. Uniu trabalhadores extrativistas e povos indígenas na luta pela preservação da Amazônia. Contrariou grileiros e grandes proprietários de terra. Conseguiu demarcação de terras indígenas. Foi condecorado pelas Nações Unidas.


No Brasil, era perseguido pela recém-criada União Democrática Ruralista (UDR) e sofria ameaças. Quando foi assassinado a tiros de escopeta, era celebridade mundial e objeto de polêmica no Brasil. Quatro dias antes do crime, havia concedido longa entrevista ao Jornal do Brasil, que decidiu não publicá-la, por considerar Mendes desconhecido e por entender que ele politizava demais a questão ambiental. Após o assassinato, a última entrevista de Chico Mendes foi publicada com destaque, com direito a editorial na capa do jornal.


Cito isso para mostrar o quanto a visão internacional, distanciada, às vezes pode ser mais capaz de perceber a dimensão de personagens e fenômenos que quem está imerso nesta insanidade.


Gabrielle Zaranza

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