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Uma xícara de açúcar

00:00 | 22/07/2018
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Na semana que passou, o jornalismo me pôs diante de mais um personagem que me atravessou. Uma senhora, dona Maria José, 48 anos, adotou um homem de rua com 70 anos e sua biografia de maus tratos.

Seu Benedito foi adotado já idoso, dormia nas ruas do Centro de Fortaleza há pelo menos 50 anos e, provável, morreria algum dia como indigente. Seria encerrado em uma daquelas covas invisíveis do cemitério do Bom Jardim.

Maria José tem quatro filhos, recebe R$ 220 do Bolsa Família, mora numa casa mínima na beira do rio Ceará, o marido foi embora, e cata material reciclável nas ruas do arriscado Parque Leblon I. Às vezes, apura quinze reais.

Perguntei sobre o que ela dividiria com Benedito. Prometeu que de manhã, geralmente, não tinha nada. Mas às tardes, em algumas tardes, sempre apareceria algo mais do que de manhã e ele comeria também.

Não estou fazendo apologia à pobreza nem romantizando a pindaíba e muito menos batendo palmas para o assistencialismo. É outra conversa. Maria José, com toda a escassez, é quantiosa.

Deu para o farrapo de gente, um resto de vida com alguma dignidade. A de pelo menos ter alguém interessado pela inexistência de Benedito.

E fiquei matutando. Como seria a Cidade se tivéssemos sido criados e educados em casa, na escola e na rua para compartilhar o que temos? Em vez da ladainha equivocada do crescer, ganhar muito dinheiro, ficar rico e ser feliz para sempre?

Sei que pai, mãe ou outro tutor, no geral, querem um riscado confortável para os seus. Sem os suplícios ruminados por eles. Mas nessa batida, acabam minando a possibilidade da Cidade que troca.

Pode parecer frescura, mas compartilhar uma xícara de açúcar ainda é uma lição. Quando lá em casa, uma vizinha vinha pedir até palitos de fósforos ou para terminar de cozinhar o almoço no fogão de mamãe porque o botijão dela havia secado.


Ou alguém, único dono de um carro na rua, era acordado de madrugada pois um vizinho havia passado mal do coração e se pedia a compreensão dele para socorrê-lo até o hospital de Messejana.

As fatias de bolos nos pratinhos cobertos por guardanapos pintados cruzavam as cozinhas de quintais conjugados, de cacimbas divididas e calçadas compartilhadas à noitinha.

Sei que alguns lembrarão o abuso que era assistir televisão, até tarde, na casa de quem podia comprar uma Telefunken.

Pedir para gelar uma água na Consul alheia era comum. Tinha quem não se mancava quando se tornava inconveniente usar o telefone da vizinha além da gentiliza. E sem um tostão de colaboração.

Embora as distorções, esse manual de compartilhamento dava uma sensação de que as generosidades tornavam leve a convivência da porta de casa para fora.

E, ainda, fazia pensar sobre a falta de solidariedade entre os de casa mesmo.

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