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Alexandra assunção dos Santos

00:00 | 14/01/2018

Fico, aqui, pensando qual rumo tomo na escrita dessa crônica. É que a Cidade me demanda além do que consigo. E, feito um alucinado, ouço mil vozes no pé do ouvido pedindo escrita. Não é mediunidade, não. 

É aperreio, mesmo. Alucinação por uma carrada de histórias que vão e vêm e quero sabê-las, enredá-las. Nem é inspiração. Inspiração, ponho na casa da leveza. Da repentinidade de ser tocado por alguém e sair pulante feito cabrito. É gozo.  

Pois bem. A morte besta dessa moça do ônibus da linha Antônio Bezerra-Messejana e o show dos Veloso Caetano, Moreno, Tom e Zeca fazem um cabo de guerra em mim. Porque não consigo compreender um; e o outro é a leveza que careci na semana. 

As duas histórias atravessam as Cidades encruzilhadas em mim.  

Da moça, passageira de seu inesperado, é porque penso que temos de ter uma boa morte. Alexandra Assunção dos Santos, 34, não foi assim na travessia dela. Por que, Nossa Senhora da Boa Morte?  

A morte confortável deveria ser parelha com a vida sem desarranjos tão grosseiros. Dignidade é também fenecer e suspirar tranquilo na hora da ida não sei para qual lugar ou nenhum.  

O finamento também desse rapaz! Nem nome os jornais lhe deram porque não tinha identidade em seus bolsos e morreu na suspeita de ser um bandido.  

Uma vida, provavelmente, feito sua morte. Azucrinada, apertada na bexiga preste a estourar ou uma dor sem fim no corpo que o acolheu por aqui. Coitada da mãe dele! 

Imagino minha morte ao lado de quem me gosta. Tranquilo, recebendo saudades já dali a alguns instantes. Queria morrer em casa, sou um ser antigo. Na cama onde transei, feito alguns parentes do Maranguape, da Aratuba e do Camocim. 

Queria ainda ouvir alguns passarinhos, sentir um pouco do cheiro do mangue do Cocó. Ter a mão amada de Fátima em meu rosto, aproveitar o toque. Recordar, também, das mulheres que me fizeram.  

E Sarah, Pedro e Saulo, agradecê-los de terem me rebrotado.  

Não queria morrer nos tubos da UTI nem atravessado por bala em ônibus, na volta pra casa. Não queria ter a cabeça decepada num bairro onde se vive o medo... Finalizar a vida pede muito afeto.  

Se eu tivesse o poder de reescrever o fado de Alexandra, que era Assunção e dos Santos; e do rapaz que virou assaltante, mudaria o final do conto. Nada de dor dilacerante e segundos de desesperação.  

Morte e vida pedem dignidade. Rasgo de amor. Direito a choro, a um nome, a lembrancinhas no nascimento, café e bolachinhas no velório...  

Direito a declarações derramadas de querença... Samba se for o Felipe Araújo, teatro se do Ricardo Guilherme. 

Sobre o Caetano Veloso, Zeca, Moreno e Tom, nem sei se são caras legais no dia a dia, mas tive um momento de felicidade com eles na vida. De o corpo querer ser odara. Pra ficar tudo joia rara...   

 

DEMITRI TÚLIO é repórter especial e cronista do O POVO demitri@opovo.com.br

DEMITRI TúLIO