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De volta à cidade que me pariu

00:00 | 17/12/2017
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Ia escrever sobre a grilagem, ou cara de pau mesmo, da OAB-Ceará em construir um prédio particular de dois andares no estacionamento “público” do Fórum Clóvis Beviláqua. Num terreno público, num equipamento que deve servir ao coletivo.


Os advogados têm o privilégio de possuir um estacionamento exclusivo por lá. Assim como os doutores juízes, promotores e desembargadores. Uma questão de segurança e não de apanágio, alegam.


Se existem ameaças, e de fato em alguns casos há, que se reforce o policiamento. Mas há, também, uma soberba mal disfarçada. E a necessidade de se manter uma distância do cidadão comum. Traço ainda do tempo da família real no Brasil.


O arrogante é que a OAB-Ceará sequer pediu autorização ao diretor do Fórum para construir o bangalô. Anunciou aos doutores, via Caixa de Assistência dos Advogados e Advogadas, que entregaria um espaço vip, refrigerado, no estacionamento mantido pelo Estado.


“Sala de apoio com TV, jornais e revistas. Telefone para ligações locais, café expresso, serviço de engraxate e empréstimo de beca”.


Tudo muito bacana e gentil de uma entidade de classe com seus associados. Mas não em área pública. Ao redor do fórum existe uma profusão de terrenos que, desmatados, viraram estacionamentos. É só a OAB comprar um e construir para os seus.


Talvez pior do que o privilégio seja a certeza de achar que um fulano ou grupo tenha a regalia de ser mais merecido que outro. E ainda se usa o verbete “direito” como sinônimo de levar vantagem.


A Cidade crescida guenza, pendente para quem está mais próximo do gestor público (não é nem da gestão), está cheia dessas boas vontades dirigidas a particulares em espaço dito coletivo.


Enquanto isso, dentro do Fórum, a ralé derrete no bafo quente dos corredores. Nas cadeiras desconfortáveis, duras. No fedor de um prédio mal concebido e envolvido em denúncia de superfaturamento da obra. Fiz algumas matérias. Nunca houve prova.


Sim, comecei a crônica (ou mais um texto de Das Antigas em crise existencial por causa da Cidade) ensaiando que não iria escrever sobre a trapeira privê da OAB, no Fórum. Mas acabei me traindo.

 


Na verdade, na minha cabeça e enquanto dedilhava o teclado, iniciei uma narrativa sobre encontros de adolescentes que se conhecem no tratamento do câncer nos leitos do Hospital Peter Pan.


Encontros que viram namoros, que se transformam em romances, que se beijam, que eu vou idealizando...


Que, muitas vezes, são interrompidos por causa da partida de um ou outro. Fiquei atrás de palavras engasgadas, de olhos mexidos...


Mas teriam experimentado o amor por um ano ou alguns meses. Felizes para sempre enquanto descobriram o abraço de namorados...

 


DEMITRI TÚLIO é repórter especial e cronista do O POVO

demitri@opovo.com.br

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