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Outro pacto pela vida

00:00 | 08/10/2017
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Sei que alguns leitores reclamam quando não mergulho nas memórias da vida privada ou coletiva. Que acham ruim quando não vou buscar as tardes de café com pão e manteiga no Porangabussu.
 


Ou quando não falo dos fuscas velhos de meu pai, das pescarias montadas nas kombis incendiárias ou da vergonha de ter de empurrar os chevettes em frente ao Redentorista. Debaixo de chuva, porque os perebas não podiam sentir o cheiro de uma poça d´água.
 


Até prefiro, muitas vezes, caminhar pela biografia do chão. Encontrar nele as brincadeiras de pedras de minhas irmãs, do elástico, das bonecas de papelão compradas na banca de revista, das bilas e do jogo de triângulo desenhado no terreiro.
 


Memória é texto bom de se remoer, sem a precisão da nostalgia. Nem o desejo de que um amor antigo retome. A não ser que seja zerado dos carnavais e incomparável. Porque vamos sendo outros e, ainda bem, não somos fotografias na parede.
 


Meu instinto até pede memória. É o que vamos acumulando e garante, talvez, o corpo Pina Bausch na Cidade que não deixa de se movimentar. Ou memória, seu lado mortal, apenas nos encarquilha sucumbindo a dança.
 


Uma das histórias que me assusta é a estupidez da violência aspergida pelos whatsaaps. Num passado, de mais ou menos 30 anos, não me lembro de tanto assombro com quem vem lá.
 


Sim, há 30 anos se afanava pelo telhado. Feria-se de faca. Se esganava pelo machismo e honra idiotas. Não se levava desaforo pra casa e o caco da garrafa de cerveja era a arma dos arrochados de pé de balcão.
 


Ou então iam em casa buscar com o que matar o outro. Era espanto um velório desses na maioria dos bairros.
 


Hoje não. A menina de 13 anos, porque foi namorar um cabra do Comando Vermelho no Pau Fininho foi julgada e morta pelos indizíveis dessa tal GDE. Um tribunal do justiçamento onde a pena de morte é a lei.
 


GDE, PCC, CV, Massa Carcerária... De uma hora pra outra, o Estado foi tomado mais ainda por projetos narciso de políticos e o ódio se alastrou nas ocupações desordenadas. Viraram comunidades na marra.
 


Entulhadas de moradias indignas; escolas públicas ineficientes e uma diferença covarde na criação dos meninos da Aldeota e dos “menores infratores” do Gueto... Com a lama nos regos e o tráfico abastecendo miseráveis e ricos, a fossa estourou...
 


Pode não ser certa, fora da lei, mas é também uma reação contra o que não é dividido. Extremada revolução. Com o fedor da morte na carne, um levante de anti-heróis bandidos. E aí?
 


Podem anunciar, em véspera de reeleição, a criação de 100 batalhões do Raio, 300 viaturas, não sei quantos novos PMs e uma Fortaleza toda vigiada por câmeras. Não irá adiantar sem segurança social.
 


Façam assim, como o Ceará Pacífico foi engolido pela epidemia das facções, Assembleia Legislativa e Câmara tomem vergonha. Saiam da omissão e dos discursos politiqueiros...
 


A Fiec deixe dessa besteira de estar discutindo a picuinha de quem vai ou não virar deputando, senador ou vice-governador... Divida!
 


Ou vem um novo pacto pela vida em Fortaleza, pelo Ceará, ou então o destino é mesmo Portugal, Chile ou Uruguai... E quem ficar que se esfole. 

 


DEMITRI TÚLIO é repórter especial e cronista do O POVO [email protected]

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