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Chá de colônia e canapu

00:00 | 22/10/2017

Tenho a impressão que só um complô do bem para que o tempo mude de ares e atitudes. A tentação da escrita, aqui, é de voltar a tocar nas pendengas da Cidade desigual e pouco coletiva.


Havia até começado um texto para falar da revolução das facções. Uma forma de resistência, mas criminosa. Excludente e dolorosa para quem tenta existir na periferia. Enxotados do jogo social, partiram para o extremado. Esfolar, roubar, matar e, inclusive, disputar o mercado da cocaína para os “bem nascidos”.


Só que reproduzem o mesmo modelo escroto de quem aparta, aqueles que se esconde atrás de muralhas dos condomínios fechados, dos carros blindados, das armas dos seguranças. Que se juntam em clãs, dominam a política e o dinheiro, e às favas com quem mora no rés da pobreza.


Mas há uma encruzilhada cada vez mais asfixiante. São muitos os sinais. Como poucos ricos têm aeroportos particulares, a maioria dos bacanas tem de atravessar de carro o Lagamar após descerem no Pinto Martins. E, na travessia, o tráfico está mandado bala, pedras, constrangimentos e assombros... Bem aí!


Pois bem, há a precisão do ajuntamento de gente do bem. Gente do bem, não. Arrogância minha e cabotinismo de se vestir de boa praça e de se achar acima do bem e do mal.


O ajuntamento é de gente disposta a não querer lascar com o outro. Ser humano honesto. Que não está a serviço de interesses particulares de poder e de querer ganhar com a escravidão ou a urgência do câncer de alguém.


Gente que não ache normal uma ditadura cívico-militar que torturou, fez desaparecer e censurou. Que não ache humano o fim de direitos de trabalhistas. Que se oponha à submissão de babás. Que lute contra o desmatamento de unidades de conservação...


Hoje a gente está assim: quer falar de gente do bem, de pessoas que se empenham por dias mais coletivos e menos injustos, mas acabamos caindo na armadilha de perder energia com a notícia sobre o retrocesso do dia.


Pois vamos mudar a prosa. Conheci Ângela, uma jovem senhora que distribui plantas. Ela tem a convicção que vai tornar a vida dela e das pessoas melhor ao lado de pés de canapu, de amora, de taioba, de corama...


Pode ser. A varanda lá de casa, depois que enchi de jarros e plantas sem serem de plástico, ganhou outro desenho o amanhecer. E na travessia da noite, agora pastoro os botões do jasmim miúdo. Florzinhas alvas, redolentes e minha infância vem pelo cheiro.


Falando em Porangabussu, Ângela me deu uma muda de pé de colônia. Folhas grandes e cachos de flores brancas com um pouco de encarnado. Voltei ao tempo de meu avô vivo. Fumante, cardíaco, vez em quando íamos ao pé da cacimba onde havia uma touceira de colônia.

 

Cortava uns talos, desfiava folhas e botava na água até ferver o chá. Ele tomava e me oferecia uma xícara pequena ou caneca de menino. Servia-me, talvez, três dedos. Um perfume de voar. Ele dava de beber o coração para aquietá-lo na vida e baixar a pressão... Eu ficava tonto, meio lesado e pegava no sono.


Só bebi enquanto ele viveu. Depois me esqueci do pé de colônia e até de meu avô no dia a dia. A ausência tem desses vãos até com quem se quer bem. Pois Ângela o trouxe de volta e agradeço a generosidade. Principalmente por esses tempos...


DEMITRI TÚLIO é repórter especial e cronista do O POVO [email protected]



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