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Cebola branca, bife batido na pimenta

17:00 | 29/04/2017

A Cidade é um negócio bom de se espiar. E não há invenção melhor do que a janela e o apara peitos. Cotovelo dobrado, mão segurando um lado do queixo, vento no rosto e o pescoço um ventilador no modo 1... Vagando, tateando a rua até onde a vista prefere.


Sim. Espreitar o movimento, escutar de trisca de orelha, se prazerar com a comida alheia que vem no cheiro da galinha torrando, às 11 e pouco, ou uma cebola branca dando gosto ao bife batido na pimenta do reino.


Falo da janela, mas o batente da porta é outro lugar precioso. E as esquina que os pés vão feito jumento de verdureiro? Também a paradinha na banca de revista e, mais adiante, a mulher do carrinho de tapioca... café e tamboretes de plástico...


Todo mundo olha, todo mundo esquadrinha a vida alheia. Olha uma bunda passar, acha alguém mais desarrumado, tem vontade de ter o dia da mulher bem parecida e vestida numa roupa de malhar... Ah, se eu ganhasse sozinho na loteria!


E é preciso olhar as horas, porque espevitar a vida dos outros faz o tempo passar sem que se perceba. Quando menos se espera já “mei” dia, de tardezinha e o dia se acabou.


Talvez uma terapia clandestina. Quando não se transforma na fofoca sobre o vizinho que usa calças apertadas num corpo marombado e, apesar de muita barba, ninguém nunca o viu com uma moça.


Nem se incomoda de ódio com o abestado que se mudou da Barra do Ceará para a Aldeota e acha que agora é bacana. Defendendo até a volta dos milicos e o séquito de bajuladores civis.


Por falar em Barra do Ceará, a vi por outra janela na semana que se foi. A do jornal de papel, que não desarreda de espreitar a Cidade. Na verdade, pedaços dela.


Vi que o restaurante Albertu’s, 52 anos ali, será demolido por ordem da Justiça. Ok! Se ele não está legal, mesmo sendo parte do relicário de afetos dali, tem de ser legalizado.


Mas o intrigante é ser demolido apenas ele. O mangue da Barra entupido de construções e ocupações irregulares e não se vê um movimento, sustentável, do Ministério Público e da Justiça pelo equilíbrio.


Apenas pontual. Contra prefeituras de Caucaia, Fortaleza e governo do Ceará nenhuma ação para que reestruturem, de verdade, a beira do mar e o rio.


No Parque Leblon I, uma diagonal traçada a partir do Albertu’s, tem gente virando caranguejo na lama, na miséria e no tráfico. E não há ação de demolição e reconstrução das dignidades.


Olhar pela janela é bom, mas também pode angustiar. O hotel Marina e o estaleiro da Inace, vivo cubano, tomaram uma faixa de praia da Cidade e nunca mais devolverão. Grande, murada, vigiada... Nunca tomei banho ali e não haverá demolições.

 

A Cidade é uma história boa de se olhar...


DEMITRI TÚLIO é repórter especial e cronista do O POVO [email protected]


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