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Iracema travesti e o bode

17:00 | 04/03/2017
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O mito de Iracema, a índia engabelada do Romantismo, reencarnada numa travesti tapeba... Ao som de uma orgia carnavalesca, entre o cortejo teatral de rua e as andanças festivas de New Orleans... Ela vai e acasala com um Bode da mitologia cearense, ao vento salgado do mar da Praia dos Amores...


Logo o bode! Misto da molecagem e do fauno sexual ou demoníaco dos tempos mais lazarentos e até aqui em Fortaleza. Não poderia ser mais luminoso.


Ou Dionísio, mesmo, vestido da bodança para atuar e esculhambar com a regra geral heteronormativa. No meio da Aldeota dos ricos que não se reconhecem também caboclos ou outra mistura com o pé no canelau. Sobrenome e sangue de europeus! kkkkkkk


Portugueses, espanhóis, holandeses, ingleses... Marróia! Antes deles, já existiam pitaguaris, tremenbés, cariús, jucás, cariris, calabaças, canindés... Hoje, que venham os de fora para se diversificar. E não comer os curumins e as indiazinhas da Aquidabã...


Pena que não atuo mais nem boto pra fora a ousadia cênica dos tempos radicais da Cantora Careca, na avenida da Universidade.


Pois poderia muito bem ter sido Ionesco o puxador do desposório entre a travesti Yasmin Shirran e Bruno Gomes. Entre o sol e a necessidade de chuva. O Bode Ioiô ressuscitado para berrar o Fora Temer e a nova possibilidade de Iracema.


Nem macho nem fêmea. Nem ser obrigado a ser o que não se é.


Não é que Fortaleza não tenha mais preconceito. Não. Mas ela vem berrando, há alguns anos, pedindo pra saírem do meio os preconceituosos.


Se não conseguem mudar o tino do pensar, que deem passagem ou se manquem. Não voga mais jogar pedra na Geni nem chamá-la de maldita. É bendita sois entre homens, entre mulheres ou o que se sentir ser... Não voga mais matar homofobia.


Só sinto falta é do Bom Jardim na Aldeota, do Curió também no cortejo aldeotino até o Largo do Dragão. Pena que não é assim do Dragão do Bom Jardim, às margens do Maranguapinho...


Melhor dizendo, o Bom Jardim e o Curió misturados por aqui ou por lá com o povo aldeotino que nunca vai além do Benfica.


Não ouvi falar de cortejo tão bonito por lá. Até atravessaram o Poço da Draga, mas só no Carnaval.

 

Não ouvir dizer de um banquete arruaceiro tão badalado como foi o de Iracema travesti e o Bode. Bem que o Dragão do Bom Jardim poderia também ser padrinho nesse altar de rua. Lá, por sinal, há um Circo Escola.


Há meninos palhaços, há pernas-de-pau, há malabaristas, há cuspidores de fogo e músicos...


Uma amiga, Janaína, escreveu mais ou menos assim sobre o casório à beira mar da Iracema travesti: Era a vontade coletiva de uma outra Cidade. Menos apartada, capaz de se misturar sem nojo. Capaz de nos tornar mais amorosos... Que seja de verdade!


DEMITRI TÚLIO é repórter especial e cronista do O POVO [email protected]


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