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Jejum com responsabilidade

Estudo com ratos em jejum de 24 horas indicam danos pancreáticos, apesar da perda de peso. É preciso definir qual estratégia de jejum pode beneficiar cada organismo

12/11/2018 01:30:00
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[FOTO1] Em estudos anteriores, ainda no mestrado, a bióloga do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP) Ana Claudia Bonassa descobriu que o jejum de 24 horas aumentava os níveis de radicais livres no pâncreas. A partir dessa descoberta, já no doutorado, Bonassa pesquisou e apresentou o estudo no Congresso Europeu de Endocrinologia, na Espanha. Abaixo, como o estudo foi feito e os principais resultados. 

[SAIBAMAIS]O POVO - Como foi feito o estudo e quais as descobertas?

Ana Claudia Bonassa - Existem vários modos de fazer jejum intermitente. Há protocolos que propõe jejum por dois dias não consecutivos na semana (dieta 5:2), outro propõe jejum dia sim e dia não, e tem outros que propõem jejum diário, pulando as primeiras ou as últimas refeições de forma a prolongar o jejum durante tempo de sono. Nós escolhemos estudar o protocolo do jejum dia sim e dia não em modelo animal, ratas Wistar jovens e saudáveis. Dividimos aleatoriamente os animais em dois grupos: o controle (CT) e o grupo sob jejum intermitente (JI). O grupo CT sempre teve livre acesso à ração de roedores balanceada. Já o grupo JI teve acesso à mesma ração em dias intercalados, ou seja, 24h de ração à vontade seguido de 24h sem ração, por três meses. Ambos os grupos tiveram sempre livre acesso à água. Os principais achados foram (sempre em comparação ao grupo CT): redução do peso corporal; aumento da gordura corporal; redução da massa muscular; grande aumento do estômago; aumento de radicais livres no pâncreas endócrino (responsável dentre outras funções por secretar a insulina); grande aumento da insulina plasmática e resistência à insulina nos tecidos-alvo (músculo e tecido adiposo), o que caracteriza um estado de pré-diabetes; e indícios de danos ao pâncreas endócrino, com aumento de morte das células pancreáticas.

OP - Quais os resultados a que vocês chegaram em relação a produção de radicais livres com o jejum intermitente?

Bonassa - Houve aumento dos níveis de radicais livres no pâncreas. Essas são moléculas importantes, pois auxiliam em processos fundamentais dentro das células. O problema é quando há um aumento exagerado e/ou prolongado. Nessas condições essas moléculas podem ser danosas levando a morte das células, que foi o que observamos no pâncreas.

OP - O estudo faz um alerta "que a prática pode elevar o risco de desenvolvimento de diabetes". Em contrapartida, há indicações do jejum como forma de modular metabolismo, e controlar níveis de insulina. Como a senhora vê essas pesquisas? Como explicar que a mesma estratégia indique resultados tão diversos?

Bonassa - Na verdade não é a mesma estratégia. Cada vez mais os estudos estão indicando um importantíssimo papel da cronobiologia, que é a área da biologia que estuda como os seres vivos respondem e se adaptam aos ritmos do meio ambiente, como o dia e a noite (variação claro/escuro) ou até mesmo as estações do ano (variação de temperatura por exemplo). Estudos de bastante qualidade em humanos mostraram que quando a alimentação é mais cedo e o jejum mais tarde há resultados muito positivos no organismo, como diminuição dos fatores de risco para diabetes e dos radicais livres. Em contrapartida, também há estudo e de muita qualidade em humanos robustos que mostram resultados opostos quando o jejum é feito mais de manhã e a alimentação é mais tarde, com aumento de fatores de risco para diabetes e aumento do sobrepeso e obesidade. Nós estudamos um modelo de JI que afeta os ritmos biológicos dos animais, que assim como nós humanos, são seres circadianos, ou seja, possuem ritmos biológicos influenciados pelo ciclo claro/escuro (dia/noite). Esse estudo nos mostra que esse protocolo 24h de jejum seguido por 24h de alimentação à vontade resulta em vários efeitos adversos. Porém, como já dito, há vários modos de fazer jejum intermitente e por isso há registros de resultados que a priori parecem opostos, porém não são comparáveis por não estudarem o mesmo protocolo de JI.

OP - O jejum é usado, em muitos casos, para perda de peso. O estudo indica que houve perda de peso? Como a senhora analisa os efeitos deletérios diante da perda de peso?

Bonassa - Sim, os animais em JI apresentaram um peso menor que o peso os animais CT já na segunda semana de tratamento e isso se manteve até o final dos três meses. Isso se deve ao fato de em média os animais comerem menos, ou seja, acaba sendo uma restrição alimentar. Sabe-se que perder peso é saudável para um organismo com sobrepeso ou obesidade. Vale lembrar que os animais não eram obesos, ou seja, é questionável se isso foi benéfico mesmo. Além disso, há outras formas de perder peso que são mais saudáveis e que não resultam em efeitos colaterais, e o acompanhamento de um profissional nutricionista pode ajudar nisso.

OP - A longo prazo, a prática do jejum pode levar a alguma consequência à saúde?

Bonassa - Mais estudos clínicos e de longo prazo são necessários para responder a essa pergunta. Para que o um protocolo de JI seja uma boa estratégia para perda e manutenção do peso precisamos estudar qual seria o melhor modo de fazer o JI para que não haja tantos efeitos colaterais e que seja sustentável em longo prazo.

OBESOS 

Acadêmicos da Universidade de Illinois, EUA, acompanha- ram 36 pessoas obesas por 12 semanas submetidas à dieta 16 por oito. Os resultados mostram uma perda média de peso de três quilos ao longo dos três meses.

Domitila Andrade

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