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Fran decide viver

| TRANSFORMAÇÃO | O depoimento de duas pessoas que passaram pelo suicídio no caminho da mudança de gênero e transformam a ideia de morrer em muitos planos de vida

09/04/2018 01:30:00
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O Abrigo Thadeu Nascimento, em Fortaleza, acolhe as histórias de vulnerabilidade de pessoas trans. Naquela casa comum, de três quartos, sala, cozinha, garagem e quintal, alugada em setembro de 2017, moram 14 pessoas e suas violências, seus sofrimentos e as lutas de cada dia. Quem cozinha não lava a louça, quem suja limpa e uns abrigam os outros.

[SAIBAMAIS]
Desde que iniciou a transição de gênero, do masculino para o feminino, em agosto de 2014, Fran*, 33 anos, formada em Engenharia de Pesca, funcionária pública e com a vida “toda estruturada porque vivia com uma pessoa cisgênera”, também sofreu um processo depressivo, deflagrado “por uma situação de violência”.
 

A alegria mudou para “uma tristeza sem fim”, contrapõe. Fran não tinha mais vontade de estudar ou de trabalhar e nem ânimo para buscar ajuda. Perdeu o emprego. Sair na rua lhe dava pânico. Além de tudo, ouvia que “era uma pessoa fraca, que não tinha Deus no coração”. E a família já havia ficado  distante. Fran parecia conter todas as ausências.


“Era como se aquele corpo fosse desprovido de alma, de ânimo, de entusiasmo e que só restava jogar ele fora. O que aconteceu algumas vezes”, relembra. “De 2014 até 2016, eu passei lutando contra esse processo depressivo, mas também cedendo às pulsões suicidas. Tentei suicídio mais de dez vezes. Porque teve todos esses processos de perdas e esvaziamentos”,  expõe.
 

Em novembro de 2014, uma amiga com quem dividia a morada conseguiu que Fran começasse um tratamento psicológico em casa. “Apoio é fundamental. Por mais que, lá fora, você vá receber porrada, quando você chega em casa, tem quem te apoie, abrace, aconselhe, te permite”, sublinha.
 

A terapia foi quando, depois de 29 anos de repressão, de pular da infância para o trabalho (com a separação dos pais), de sobreviver mais do que viver (os desejos ficaram à margem das responsabilidades), ela se permitiu ser quem é. “Foi um processo libertador, mas foi difícil”, espelha. “A terapia é se enfrentar e enfrentar as questões que estão doendo. E você tende a fugir delas, então, algumas vezes, eu me auto sabotava, inventava uma desculpa para não ir”, completa.
 

O tratamento psicológico se somou ao psiquiátrico. “É importante”, ela considera, enquanto prepara o almoço, na manhã desta entrevista, e prepara cada dia. “Todas as dificuldades de tratamento que tive me ajudaram a formar essa pessoa que sou hoje. Ainda bem que sobrevivi”, agarra. “Hoje, olho para mim, para minha trajetória, para o que estou construindo... Comecei a terapia e o tratamento psiquiátrico sem objetivo porque a gente chega vazia. Hoje, consigo ter um objetivo dentro do meu tratamento e ter isso já é uma coisa importante”, extrai.
 

Fran quer recuperar a independência e a autoestima. Escolheu a si e a vida, do jeito que são: por fazer e se refazer. “Meu processo de me aceitar e de me assumir como uma pessoa trans foi primordial para o meu processo de recuperação... Antes, eu me olhava no espelho e era alguém que alguém queria que eu fosse”, equilibra. “Foi uma cura que veio de dentro... O Abrigo é um lugar, pra mim, de cura também: conviver com meus pares e perceber que meus problemas e minhas glórias são semelhantes a de outras pessoas. A gente se ajuda, celebra juntos, constrói esse lugar”, une.
 

Talvez Fran não possa modificar o próprio corpo e a cultura dos outros, mas já é dona de si, ela retoma, “dentro das possibilidades que estão postas”. Um exercício de autoconhecimento que pratica é escrever as situações que lhe afetam “sem nenhuma censura”. Encara a dor para vencê-la e, assim, se tornou mais forte para o caminho de ida e volta até o profundo sentir. “Não quero mais morrer por conta disso. O que eu quero é aprender a lidar com isso”, aponta.
 

Viver é travessia, compreende. “Tem vezes que você está sentindo aquela dor, mas precisa ir sentindo aquela dor”, segue, Fran, levando a tarde. Depois do almoço, ela recomeça, tinha organizado o tempo para estudar. Planeja tentar o Enem para Enfermagem. (Ana Mary C. Cavalcante)

*O POVO preserva o nome completo por se tratar de pessoas em situação social vulnerável.

 

O Abrigo Thadeu Nascimento faz referência a um jovem transexual de Salvador, assassinado em maio de 2017. A casa não tem apoio público e é mantida por doações. O Abrigo lançou uma campanha para pagar o aluguel deste mês.

Doações: Banco do Brasil, conta corrente 2529,
agência 1121-5.
Informações: (85) 9.8553.8070.

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