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Dias melhores vieram

09/04/2018 01:30:00

Aos 36 anos, a vida, que “era uma maravilha”, perdeu o rumo. O policial militar* “trabalhava 27 dias para folgar dez, com uma distância de casa de 200 quilômetros”. Contra o tempo e a distância, ele tentava manter o terceiro casamento. “Servi em todo o Estado do Ceará, entrei na Polícia com 17 e poucos anos. Foi por vocação”, afirma.  

“Eu não posso parar porque tem pessoas que dependem do meu trabalho”, continua, referindo-se a certo imaginário de criança “de servir à população”. Aos 42 anos e ainda na corporação, o policial também conta a vida por quatro infartos, dois cateterismos e algumas tentativas de suicídio que sofreu.
 

“Foi um conjunto de fatores”, reconhece, que o levou ao limite da esperança. Em um Estado com recorde histórico de homicídios em 2017 (5.134 assassinatos, segundo dados oficiais), o policial via a morte por todos os lados. As notícias, de 2016 para cá, também só falam em aumento do número de policiais assassinados. “Eu não sonho, eu tenho pesadelos de tudo o que eu vivi”, humaniza.
 

“Na época (há seis anos, quando houve as tentativas de suicídio), tudo o que eu fazia, eu não era reconhecido pelos meus superiores. Ao mesmo tempo, minha vida familiar, aconteceu de eu não ter ninguém”, soma. “Eu me sentia só, desamparado. Não tinha ninguém pra desabafar. Minha válvula de escape era sentar numa mesa e beber”, completa.
 

Até que buscou a ajuda de uma psicóloga da Polícia Militar. “A conversa é mais importante (como prevenção). O acompanhamento psicológico também, mas muita gente ainda tem vergonha, tem aquele tabu. O policial pode estar passando tudo na vida, mas sempre vai dizer que está bem”, reflete.
 

Foi preciso força de vontade para ultrapassar tudo e continuar. Dias melhores vieram, e o policial afirma que superou a ideia de suicídio. “Minha vida não tinha significado. Depois, vi uma luzinha no fim do túnel”, aponta para a filha caçula. “Quero lutar comigo mesmo para não cair jamais. Porque eu quero ver minha filha casando, se formando. Para não ver o sofrimento dela quando me viu na UTI”, cuida. (Ana Mary C. Cavalcante)

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