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A imagem da força

VIDAS INVISÍVEIS | A vulnerabilidade das pessoas que convivem com a violência. E a vida que se refaz por forças contrárias à morte

09/04/2018 01:30:00
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O suicídio chama a atenção por uma estatística que tem crescido, desde a década de 1980, no Brasil: é a quarta maior causa de mortes entre jovens de 15 a 29 anos, informa o primeiro boletim epidemiológico sobre suicídio, do Ministério da Saúde (setembro de 2017). A extensão da perda é maior, 11 mil pessoas (média/ano) se matam no País, ainda que vidas de alguns grupos, como profissionais da segurança pública e população LGBT, além dos idosos (70 anos ou mais, que compõem as maiores taxas de suicídio no boletim), sejam despercebidas.
[SAIBAMAIS] 

Grupos que estão em contato com a violência se tornam mais vulneráveis, avalia a cientista política Dayse Miranda, autora do livro “Por que policiais se matam?” (2016). A pesquisa se desenvolveu no doutorado, quando ela conheceu uma policial que lhe mostrou que a taxa de suicídio na Polícia Militar (PM) de São Paulo era quatro vezes maior do que a da população. Mas a instituição se fechou para o estudo, lembra a pesquisadora, e Dayse só encontrou respostas na PM carioca.
 

Após 58 palestras no batalhão da PM do Rio de Janeiro, “sobre valorização da vida”, Dayse conheceu as fragilidades de homens e mulheres que usam armas e são a imagem da força. A escala de trabalho desumana, o risco exacerbado (também para as famílias) e um corpo clínico insuficiente para o suporte psicológico são falhas de uma política pública para a saúde mental desses profissionais. “É preciso entender que está lidando com uma pessoa, que tem limites, precisa de cuidado. Dos 22 casos analisados, 70% declarou sofrimento pela perda de um colega em combate”, destaca a especialista.
 

“A dor do outro nos afeta. Para além disso, sofremos de estresse. É inerente da alma humana: não ficar indiferente à dor do outro”, dialoga o major José Edir Paixão de Sousa, comandante da seção de busca e salvamento do Corpo de Bombeiros do Estado do Ceará. Ele está na corporação desde 1998 e acompanhou “várias tentativas de suicídio” fora e dentro da instituição. O fato se tornou pesquisa no mestrado em Saúde Pública na Universidade Federal do Ceará.
 

O major estudou o suicídio em profissionais de segurança pública do Estado, de 2000 a 2014, e obteve uma taxa semelhante ao estudo feito, no Rio, por Dayse Miranda. “É mais grave na PM, deu 5,2 (risco maior frente à população civil)”, atenta. Na pesquisa, ele teve que vencer os silêncios sobre os sofrimentos. “A principal dificuldade é o rótulo que somos invencíveis, superiores à dor”, relata. “Quando aceito que tenho vulnerabilidades, trabalho em cima delas e estou me fortalecendo”, compreende.
 

“Tem o estereótipo, o bullying, a não-compreensão (do suicídio)”, reforça a psicóloga Rebeca Moreira Rangel, que atuou no Batalhão de Choque do Ceará por dez anos. “É uma sociedade que não se comunica e esse é o ponto que liga esses grupos vulneráveis. Pessoas que gritam porque querem ser acolhidas. Mas vamos conseguir. Tem que ter recursos para diagnósticos e investir na prevenção”, acredita Dayse Miranda.
 

“Para se evitar a morte, tem que se gerar a vida”, sinaliza o padre e psiquiatra Rino Bonvini. As pessoas precisam experimentar “a força e a energia da vida”, ele defende. “A vida é mais forte. É feita também da ajuda, da solidariedade, dos valores que podem fazer a sua vida diferente”, direciona. (Ana Mary Cvalcante)

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