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Hawking e seus legados

O astrofísico Daniel Brito de Freitas destaca a habilidade de Stephen Hawking de traduzir conceitos da física e o legado dele para jovens que querem se tornar cientistas

19/03/2018 01:30:00
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DANIEL BRITO DE FREITAS

ASTROFÍSICO

danielbrito@fisica.ufc.br

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Em meio a enxurrada de matérias de jornais que recebemos nos últimos dias sobre a morte do físico britânico Stephen Hawking, esse artigo pretende apresentar algo diferente. Na verdade, eu gostaria de apontar os legados deixados por Hawking que podem dar um impulso a gerações de jovens em todo o mundo para seguir a carreira científica.


Como qualquer jovem cientista no início de sua carreira, Stephen Hawking sonhava em desvendar os segredos mais íntimos da natureza. Mas Hawking não era um jovem comum. Além de sua singular astúcia intelectual e uma habilidade sem precedente de traduzir conceitos capciosos da física em uma linguagem simples, Hawking teve seu futuro comprometido por uma rara doença conhecida nos compêndios de medicina como Esclerose Lateral Amiotrófica. Uma estranha doença que veio na tentativa de banir da história um jovem cheio de sonhos e esperança.


No entanto, a doença não conseguiu ser mais forte do que ele e o mundo teve a oportunidade de conhecer uma das mentes mais brilhantes do século XX, uma mente que definitivamente mudaria nossa ideia acerca do Cosmos. Esse foi sem dúvida o primeiro legado deixado por ele: obstáculos na vida existem para serem superados, por mais impossíveis que possam parecer.

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Não temos como separar a vida e a ciência de Hawking em dois compartimentos independentes, elas são cúmplices e talvez uma seja a fonte de inspiração da outra. Desse modo, vemos nascer em Hawking uma ciência profunda e com forte teor de rebeldia como que estivesse equilibrando a ciência que pretendia alcançar ao patamar da força que tivera para superar a sua doença. Essa rebeldia toma forma quando ele chega à conclusão de que Buracos Negros não são tão negros assim. Todos de sua época acreditavam que nada poderia escapar do puxão gravitacional de um buraco negro, nem mesmo a luz. Mas, para Hawking, buracos negros podem evaporar da mesma forma como a eliminação de calor pelos poros de nossa pele. Então, buracos negros além de não-negros também são não-carecas. Esse processo ficou conhecido como Radiação Hawking.


Outra grande contribuição de Hawking sobre o Cosmos remete à famosa Teoria do Big-Bang. Essa teoria é a carta na manga dos cosmólogos mais tradicionais. Com ela tiramos uma conclusão muita valiosa para a maioria dos humanos: o Universo teve um início. Por esse lado, a teoria soa mais como um “mito de criação científico”. Nesse ponto, Hawking tem um papel importante quando estabelece a ideia de Singularidade como uma explicação para a origem do Universo.


Ele e seu amigo, o físico Roger Penrose, afirmaram que existem lugares no Cosmos em que a física como conhecemos não funciona e, portanto, a energia, matéria, espaço e tempo estariam concentrados em um único ponto. É um conceito um tanto bizarro que compromete a própria ciência e o emprego de vários físicos ao redor do mundo. No entanto, para Hawking, a singularidade derivada da teoria do Big-Bang diz que quando observamos o Universo no passado, concluímos que ele teve um volume menor que o atual. Para eles, essa é a chave para explicar o futuro do Universo. O problema é que recuando para o passado primitivo do Universo, onde supostamente o Universo iria reduzindo seu volume, chegaríamos ao ponto onde é inevitável a inclusão da mecânica quântica.


Do problema da incompatibilidade teórica entre mecânica quântica e gravitação, Hawking perseguiu o sonho de uma “Teoria Final”, onde toda a física caberia numa Equação guardada a sete chaves por Deus. A Equação de Deus, uma alusão mais a dificuldade do que ao mérito de posse, deixou de ser uma preocupação para Hawking na manhã da última quarta-feira, 14 de março. Esse é outro legado deixado por ele: ciência é um caminho coletivo e o não-sucesso de hoje não pode desencorajar as futuras gerações. Salve Hawking!


Professor Daniel Brito de Freitas é doutor e astrofísico do Departamento de Física da Universidade Federal do Ceará (UFC)


 

Gabrielle Zaranza

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