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Suicídio entre jovens

00:00 | 10/09/2017

Todo adolescente abriga fantasias suicidas, o que é tão normal quanto o desejo de matar ou de se livrar de um rival, seja o pai, a mãe ou um irmão. Trata-se aqui de matar e fazer o luto dos ideais perdidos, dos restos do desenvolvimento, o que é compreendido como parte do processo saudável de crescimento. Nessa direção, a ideia de morte é muito importante para liquidar o desejo de se assemelhar a esses modelos, permitindo então que se assuma um lugar próprio no mundo, autônomo e único.

Como então diferenciar os dois diferentes tipos de suicídio? O suicídio fantasiado, simbólico, do seu projeto real?

O sujeito que porta fantasias de morte verbaliza as mesmas, posto serem elas resultado de uma crise, de conflitos. Aqueles que se permitem elaborar, ultrapassar e superar tais fantasias não chegam a atuá-las. Assim, a adolescência, entendida como um período de passagem e iniciação, também representa um período de conflito necessário entre as gerações, a antiga e a nova. Dessa tensão ou crise necessárias é que se torna possível o processo de crescimento, o que pode significar, em outros termos, morrer para nascer. O sujeito deve então renunciar à velha infância como renunciou às velhas roupas, e assim elaborar os três lutos infantis - do corpo, da identidade e dos pais.

Já sobre o projeto real em si, pouco ou jamais se fala. Aqueles que se encontram na dificuldade de responder aos ideais impostos, sem conseguir cumpri-los, correspondê-los nem honrá-los, portanto, sem conseguir fazer o luto dos ideais da infância, são os que buscam a saída suicida, geralmente com explicações do tipo “peço perdão, desculpem-me, não pude agradar”, via de regra em tom de acusação ou de expiação.

De fato, a juventude atual parece ter mais dificuldade do que a precedente em encontrar o seu lugar no mundo; e a sociedade, por sua vez, não parece dispor de recursos suficientes para lidar com o mal estar aí produzido. O jovem urbano hoje sequer tem a impressão de ser útil aos seus pares nem de ser verdadeiramente desejado. Por outro lado, sobre ele, exerce-se uma pressão incrível: entrar em uma boa escola, realizar a escolha de uma carreira promissora, alcançar resultados superiores aos de seus colegas etc. De um modo geral, cada vez mais se espera que eles se iniciem na vida o mais cedo possível, sem que sejam verdadeiramente oferecidas reais condições para isso. Com efeito, o sentimento nascente é muitas vezes o de um vazio adoecedor, experimentado com sofrimento e interpretado como a falta de consistência, de personalidade, de vontade, de ideias e de pensamento próprios.

Daniel Franco Psicólogo, Psicanalista, Membro do Instituto Vincular, da Associação Cearense de Terapia Familiar, do ProCria - Centro Interdisciplinar de Saúde na Primeira Infância e da Linepi - Liga de Neurologia e Psiquiatria Infantil da UFC