PUBLICIDADE
Jornal
VERSÃO IMPRESSA

Mães percorrem ruas do Centro pedindo por paz e justiça nas periferias

| Dor e luta | Protesto, próximo ao Dia das Mães, chama atenção para as que "não têm nada a comemorar"

11/05/2019 01:35:01
 CRUZES traziam nomes de jovens assassinados: histórias semelhantes
CRUZES traziam nomes de jovens assassinados: histórias semelhantes (Foto: Mateus Dantas)

Organizadas, dezenas de mães unidas pelo amor aos filhos e pela dor da perda súbita deles atravessaram ruas do Centro de Fortaleza na tarde de ontem, 10. Segurando cartazes e cruzes com os nomes dos mortos, gritaram denúncias sobre as crias terem sido assassinadas em intervenções policiais na periferia e clamaram ao Estado e à população por justiça e paz.

Entre as mulheres, estiveram representantes de movimentos como Mães pela Diversidade, Mães do Curió — em memória da chacina que aconteceu em novembro de 2015 na Grande Messejana —, Instituto Negra do Ceará (INegra), Meninos de Deus e outros familiares de adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas.

Mãe de Ingrid Mayara, 19 anos, morta há seis anos por um policial no bairro Ellery, Sandra Sales, 45, admitiu, com os olhos marejados, ter ainda poucos motivos para comemorar o Dia das Mães — celebrado amanhã, 12. "É muita raiva dentro de mim", repetia durante a concentração do ato na Praça da Justiça. Mesmo com outros dois filhos e uma neta deixada por Mayara, a autônoma precisou da força e do apoio da militância para não cair em depressão. "Na rua, não tenho nada a comemorar. Tenho dentro de casa".

Tendo perdido o filho Alef, 17, em condições semelhantes na Chacina do Curió, que dizimou 11 pessoas em 2015, Edna Carla Souza, 47, compartilha com Sandra o sentimento de pesar na data que celebra as mães. "Criei meu filho para servir ao Exército. Não imaginava que ele seria interrompido pela própria Polícia". Em casa, também como Sandra, Edna tem outra filha para compartilhar a vida e as comemorações. "Fora de casa, sou mãe de luto. Dentro de mim, sou mãe de luto direto. Mas, dentro de casa, um lado meu sorri. Tenho uma filha viva".

Depois de passar pelas ruas Pedro I, Barão do Rio Branco, São Paulo e Major Facundo, o grupo encerrou o movimento na Praça do Ferreira, por volta das 17h30min. Foram ditas mais frases de protestos e amarradas fitas coloridas à cerca que guarda a Coluna da Hora.

Ana Vládia Holanda Cruz, psicóloga, professora e integrante do Fórum Popular de Segurança Pública, compreendeu o ato como parte do enfrentamento para que "a política de segurança pública (estadual e nacional) não seja pensada de forma bélica, como guerra, na lógica do combate e da repressão, mas fundamentada nos direitos humanos e na proteção à vida".

Direitos

A Defensoria Pública do Ceará compareceu à travessia para garantir que o direito à manifestação fosse respeitado.

Luana Severo

TAGS