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Evento com palestrantes exclusivamente autistas discute a causa

| LUGAR DE FALA | O encontro, que aconteceu na Fundação Casa da Esperança, discutiu temas como vida acadêmica, o mercado de trabalho e as questões de gênero e relacionamento

25/04/2019 01:29:43

A presença de palestrantes exclusivamente autistas foi destaque do 1º Ciclo de Palestras "Autismos, Resistência e Neurodiversidade", evento realizado ontem na Fundação Casa da Esperança, na Água Fria. A inserção de pessoas autistas na vida acadêmica e no mercado de trabalho, assim como as questões de gênero e relacionamentos na vida adulta, foram alguns dos temas abordados no encontro.

Beatriz Souza, autista e estudante de Psicologia, ressalta que a luta por direitos passa a existir de acordo com a mobilização dos próprios autistas. Ela comenta que durante muitos anos esse lugar de fala foi intermediado por pais e parentes, ou até mesmo por profissionais da saúde. "Ter um evento como esse é algo revolucionário, na maioria dos eventos os autistas estão só para constar, fazendo algo secundário. Aqui eles estão falando por si mesmos, são protagonistas e têm todos os holofotes", celebra.

A participação de eventos, entretanto, é apenas uma das atividades desenvolvidas por Beatriz para reivindicar os direitos políticos dos autistas. Ela também é coordenadora do grupo no Facebook "Neurodiversos", que reúne pessoas autistas no Estado, e é administradora da página "Vida no Espectro", na qual divulga textos e vídeos em defesa da causa.

A estudante relata a construção de identidade construída dentro do grupo, em que as pessoas muitas vezes entram com vergonha de se apresentarem como autistas e ao longo do tempo acabam se engajando no debate. No caso do mercado de trabalho, por exemplo, Souza relata que as dicas comuns para uma entrevista de emprego, como manter contato visual, não funcionam para uma pessoa autista e com a mobilização em grupo eles buscam diferentes saídas para essa etapa da vida.

 A participação de vozes complementares não devem ser descartadas para Bruna Miranda, autista e agente terapêutica. Ela afirma que essas falas podem somar, desde que o lugar de fala dado para autista seja respeitado. "Uma coisa é sua mãe falar o que você está sentindo, outra é você mesmo expressar isso. Imagina se apenas homens falassem em um movimento pelo feminismo, ou se pessoas brancas dominassem o debate sobre racismo", argumenta.

A dificuldade de implantação de políticas públicas para o autismo é algo que se inicia já nas estatísticas. Faltam dados. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não possui levantamento quanto ao número de autistas no País. Em entrevista à Revista Autismo, o órgão declarou que "planeja investigar o tema futuramente, mas por razões técnicas o censo demográfico não irá pesquisar pessoas nessa condição".

Uma pesquisa desenvolvida em 2016 pela Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que os autistas são 1% da população mundial. Para Alexandre Mapurunga, secretário geral da Associação Brasileira para Ação por Direitos das Pessoas com Autismo (Abraça), esse problema de contagem poderia ser atenuado com algumas mudanças no Sistema Único de Saúde (SUS). Ele comenta que se sabe quanto se gasta e quantas pessoas são necessárias para fazer o atendimento de autistas, mas não há o número de diagnósticos. "Essa seria uma solução mais efetiva que a realização de uma pesquisa estatística, pois ainda há um número muito alto de pessoas que não têm ciência de que são autistas", pontua.

Casa da Esperança precisa de doações

Desde o ano passado, a Fundação Casa da Esperança enfrenta uma grave crise, com mais de R$ 4 milhões de dívida em impostos à administração pública. A Prefeitura, em fevereiro deste ano, enviou um projeto à Câmara dos Vereadores para a concessão de um imóvel custeado pelo poder público por dez anos. Ainda assim, a instituição continua em crise e precisa de doações para manter suas atividades.

Criada em 1993 pela médica Fátima Dourado, a Fundação Casa da Esperança presta atendimento a mais de 400 pessoas com autismo ou com atrasos no desenvolvimento, em áreas como atendimento educacional, de saúde e de assistência social.

Dados

No Brasil, a única estatística sobre população autista é de um estudo-piloto, de 2011, feito em Atibaia (SP). A pesquisa feita num bairro de 20 mil habitantes daquela cidade aponta que existe um autista para cada 367 habitantes.

SERVIÇO

O que: Doações para a Fundação Casa da Esperança

Como: Na sede da Fundação (Rua Dr. Francisco Francílio Dourado da Silva, 11 - Eng. Luciano Cavalcante, Fortaleza - CE, 60813-660) ou pelo site http://autismobrasil.org/doacao.html

Informações: (85) 3273-6961

Leonardo Maia ESPECIAL PARA O POVO

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