PUBLICIDADE
Jornal

VERSÃO IMPRESSA

Tradicional Paixão de Cristo do bairro Ellery emociona moradores

i SEMANA SANTA i A comunidade se envolve na produção da encenação há 20 anos

25/04/2019 09:14:21
ENCENAÇÃO DA Paixão Cristo percorreu  várias ruas do bairro na manhã de ontem
ENCENAÇÃO DA Paixão Cristo percorreu várias ruas do bairro na manhã de ontem (Foto: Mauri Melo)

A chuva que ameaçou cair na manhã de ontem se manifestou de outra forma no bairro Ellery. As lágrimas dos moradores do entorno da Paróquia Nossa Senhora de Lourdes brotavam aos montes durante o percurso da tradicional Paixão de Cristo que percorre as ruas do lugar há cerca de 20 anos durante a Semana Santa. Organizado atualmente pelo grupo Sagrada Família, o cortejo relembrou a condenação de Jesus Cristo e a caminhada do messias até o Calvário.

A encenação já foi produzida por diferentes coletivos e surgiu por acaso. Darcy Bandeira, 78, fez parte da equipe que iniciou a montagem. Ela conta que o grupo que se reunia na igreja do bairro não havia conseguido realizar as tradicionais novenas do período quaresmal na quantidade prevista. Foi quando tiveram a ideia de encenar a Paixão de Cristo. "Pensamos em fazer uma Via Sacra durante a última novena daquele ano e realizar uma apresentação ao final", lembra.

Assim tem sido há duas décadas. O trajeto tem início na Paróquia Nossa Senhora de Lourdes e segue pelas ruas do bairro. Com o apoio de um carro de som, são entoados cânticos e orações que se juntam à encenação protagonizada pelos jovens do Grupo Sagrada Família. "Com sol ou chuva, estamos nas ruas para passar essa mensagem de amor, paz e perdão", explica o coordenador do grupo, Wescley Sacramento.

Cerca de 50 pessoas, entre atores e produtores, estão envolvidos na Paixão de Cristo deste ano. São crianças, adolescentes e jovens que passaram meses ensaiando para a apresentação. Diferentes momentos eternizados na Bíblia foram lembrados, como a condenação imposta por Pilatos, as quedas de Jesus e o momento em que Verônica enxuga o rosto de Cristo.

A cada parada, a comunidade era convidada a ler textos que relacionavam as estações da Via Sacra ao contexto das políticas públicas, tema da Campanha da Fraternidade 2019. Uma das leitoras foi Aurileda Chaves, 55. Com lágrimas nos olhos, a técnica em Informática comemora o fato de a comunidade abraçar a tradição a cada novo ano. Ela acredita que o suplício vivido por Jesus serve de exemplo. "Foi muito sofrimento para uma pessoa só passar. Ele fez a parte dele para nos salvar, agora só falta a gente fazer a nossa".

Além dos fiéis que acompanharam o cortejo, moradores que optaram por assistir ao trajeto da calçada de casa contribuíam com a encenação como podiam. Alguns estendiam tapetes e panos por onde os atores passaram. Outros, como João Teixeira, 52, fizeram questão de deixar uma garrafa de água com copos descartáveis a postos para matar a sede de quem percorria o itinerário.

Ele conta que a tradição começou com os pais, já falecidos. "Todo ano a gente tinha esse movimento, de botar planta, de servir água. Em memória a eles, continuo fazendo". Emocionado, o autônomo resume a importância da Paixão de Cristo para ele e outros moradores do bairro: "Esse é um bom momento para refletir e orar a Deus, para que nos redima de tantas culpas".

O grupo deve retomar o espetáculo amanhã, durante a missa das 8 horas, na Paróquia Nossa Senhora de Lourdes. Na ocasião, será encenada a ressurreição de Jesus Cristo.

Produção comunitária

O Grupo Sagrada Família, responsável pela encenação do espetáculo, reúne moradores do bairro Ellery de diferentes idades. Alguns passam a integrar o projeto ainda crianças e já começam a atuar na Paixão de Cristo. De acordo com Wescley Sacramento, coordenador do coletivo, à medida que crescem, muitos deixam a encenação de lado porque precisam se dedicar aos estudos e ao mercado de trabalho, mas sempre dão um jeito de contribuir.

Boa parte passa a colaborar com a produção, montando cenários, separando músicas ou até mesmo realizando pequenas doações financeiras. Trata-se de um elo que passa de geração para geração. "Daqui a pouco serão os filhos deles (inseridos) nesse processo", projeta

Nut Pereira