PUBLICIDADE
Jornal
Abrigo em Ubajara

Parte de removidos por risco de rompimento de barragem está em santuário

Moradores da área de risco relatam saída de casa às pressas. Secretário estima que 30% das famílias se recusam a deixar local que pode ser afetado por rompimento de barragem

18/03/2019 03:20:26

Parte das famílias que moram ao longo do rio Jaburu, no município de Ubajara (Serra da Ibiapaba), e que receberam ordem de evacuação de suas casas na noite de sábado, 16, estão abrigadas no Santuário Mãe Rainha. O complexo é mantido pela Diocese de Tianguá e acolhe 42 pessoas das comunidades ribeirinhas. Conforme nota emitida pelo Corpo de Bombeiros Militar do Ceará, a remoção tem caráter preventivo, por causa de risco de rompimento da barragem do Granjeiro, que é particular. A meta é a retirada de pouco mais de 500 famílias. Mas, a gestão municipal estima que 30% dessa população se recusava a deixar suas residências até o meio da manhã de ontem.

Morador da localidade da Cachoeira do Boi Morto, Ednilson Pereira, 25, é um dos que optaram por buscar abrigo no santuário, chegando ao local na noite de sábado com a esposa gestante. "Espero que dê tudo certo. Vamos pedir força a Deus e que voltemos logo pra nossa casa em paz", projetou.

Antonio Gomes, 41, também está instalado no local. Ele chegou ao santuário no fim da noite de sábado, trazendo consigo a esposa e os filhos. "Eu tomei a decisão em cima da hora, por caso de segurança. Fiquei muito preocupado em dar tranquilidade pra minha família. E aqui a gente tá sendo bem acompanhado", conta.

Jairo Barreto, secretário da Assistência Social de Ubajara, explica que a Diocese de Tianguá cedeu o espaço religioso para abrigar as pessoas que foram retiradas de suas casas e não tinham outro local pra ficar. O santuário fica na estrada que liga Ubajara a São Benedito, no bairro São Sebastião. "Tivemos ajuda de prefeituras de Ibiapina e Tianguá, que ajudaram com ambulâncias e carros de som, explicando a importância de sair desses locais".

De acordo com Jairo, a capacidade máxima de alojamento no santuário é de 150 pessoas. Ele diz que muitas famílias preferiram se abrigar na residência de familiares em outras regiões do município. "A gente estima que 30% (dos afetados) ainda não tenham deixado suas casas", aponta a preocupação.

Ainda se encontra muita resistência por parte dos moradores e, por isso, o secretário conta que os trabalhos de conscientização têm se intensificado nestes locais. O prefeito de Ubajara, Renê Vasconcelos, reforçou, na manhã de domingo, 17, o apelo para que as famílias deixem a área de risco.

Jairo afirma que a gestão municipal tem disponibilizado material de higiene pessoal para os abrigados no santuário, além de alimentação e assistência de saúde, com atendimento de enfermeiros e técnicos de enfermagem. "E, mesmo sem a gente pedir, muitas doações vêm chegando".

Barragem do Granjeiro
Barragem do Granjeiro

Barragem de Ubajara foi construída em período sem regulamentação

Ex-secretário dos Recursos Hídricos do Estado e consultor na área, Hypérides Macêdo considera que o sangradouro que está sendo aberto na barragem do Granjeiro é a melhor opção para evitar danos maiores, ao diminuir o volume do açude e, consequentemente, a pressão na estrutura. A água do açude escoará para o rio Jaburu, em região de onde estão sendo retiradas famílias ribeirinhas enquanto dura a intervenção. "O açude deve ter sido feito pelo dono da propriedade, mal feito. As pessoas não fazem manutenção, há muitos anos ninguém faz vistoria nas barragens", diz. Ele explica que até a década de 1960 todos os açudes eram construídos em cooperação com o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs). Houve um intervalo, porém, sem regulamentação.

O Dnocs deixou o programa no governo de Jânio Quadros e, até a criação da Lei de Segurança de Barragem do Brasil, em 2000, quando foi criada a Agência Nacional de Águas (ANA), não havia regulamentação para a construção de açudes.

A barragem do Granjeiro foi construída exatamente nesse intervalo: tem cerca de 40 anos, conforme Avelino Forte, dono da empresa Agrosserra, que tem propriedade sobre o açude. Nessa época, não era necessária licença para construir barragens.

A lei em vigor que regulamenta essa questão é a Política Nacional de Segurança de Barragens, de 2010. O documento define como necessário, entre outros aspectos, indicação da área do entorno das instalações e seus respectivos acessos, a serem resguardados de quaisquer usos ou ocupações permanentes, exceto aqueles indispensáveis à manutenção e à operação da barragem; Plano de Ação de Emergência (PAE), quando exigido; relatórios das inspeções de segurança; e revisões periódicas de segurança.

Para Hypérides, a melhor solução é esvaziar o reservatório, que tem capacidade de 2,3 milhões m³ de água, e construir uma nova, de acordo com a legislação e regras atuais. A barragem é utilizada pela Agrosserra para destilaria de álcool automotivo e gera sustento a cerca de 500 famílias que vivem nas margens e utilizam do recurso hídrico para agricultura, conforme Avelino Forte.

Prevenção contra tragédia

A evacuação dos distritos ao redor do rio Jaburu por orientação da Agência Nacional de Águas, informa o Corpo de Bombeiros, em nota, "é de caráter preventivo e se justifica pela etapa atual das obras de abertura de um novo sangradouro para o açude Granjeiro, localizado entre Ubajara e Ibiapina".

 

Doações a famílias

Em Fortaleza, é possível doar alimentos, itens de higiene, agasalhos e edredons aos desalojados através da Fetamce, na rua Padre Barbosa de Jesus, 820 - Fátima. Em Ubajara, a responsável é Nadja Carneiro: (85) 99936 0231.

 

Ivig Freitas