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BATE-PRONTO

19/03/2019 00:02:34
Kadma Marques, Professora
Kadma Marques, Professora (Foto: Deivyson Teixeira10/8/2011)

Professora do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Kadma Marques defende o reconhecimento das culinárias do Ceará. Uma das fundadoras do Observatório da Cultura Alimentar do Ceará (Occa), ela apresenta a visão mais igualitária da distribuição da alimentação entre os próprios cearenses.

O POVO - De que forma o apoio ao pequeno agricultor ajuda a fortalecer a nossa base alimentar?

Kadma Marques - O apoio corresponde a um sistema de produção no qual a gente aposta que tem uma vinculação entre a produção familiar e o turismo sustentável. A produção familiar, feita e mantida como tradição e patrimônio, com práticas que passam de geração em geração no preparo da comida, fortalece esse vínculo simbólico com o alimento, com o que é consumido, os percursos que o alimento faz do campo até a mesa e traz para o consumidor uma noção mais clara, como uma cadeia produtiva menor, mais condensada. Portanto, aproxima o consumidor do produto que é consumido, assim como das maneiras de fazer e de se apropriar do alimento.

OP - A que se refere o conceito de segurança alimentar colocado pelo Occa?

KM - O conceito de segurança alimentar tem relação com o discurso formulado no campo da Nutrição. É a defesa de um alimento saudável, limpo, que tenha boas condições de produção, de circulação e de consumo. Dando margem ao que na Nutrição se chama de boas práticas. Esse conceito hoje convive com um outro, que assume um cunho mais político, que é o de soberania alimentar. Ela preconiza e defende o acesso de todos a um alimento que corresponda às condições de saúde, livre de agrotóxicos ou de manipulações que convertem os alimentos em transgênicos.

 

OP - A culinária do Ceará tem três bases distintas, do litoral, da serra e do sertão. Qual a diferença entre elas?

KM - As três bases da culinária cearense se distinguem porque nós temos uma que despontou como um elemento que foi apropriado pela produção do turismo. O turismo se centrou durante bastante tempo na ideia da venda da paisagem cearense a partir do sol e mar. Esse binômio diz do que é produzido em termos de alimento para o turista, seduzindo-o e atraindo-o, mas não resume toda a potencialidade que a gastronomia cearense tem. É esse o nosso esforço, mantendo aquilo que é valorizado em termos de produção da cultura alimentar, a partir do litoral, e coloca em evidência aquilo que é produzido na serra e no sertão. É justamente essa combinação que torna a cultura alimentar cearense tão rica e variada. Considero todo um universo que está num processo de descoberta de valorização.

ANGÉLICA FEITOSA