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Missa para moradores de rua. Histórias de quem não tem lar: físico e espiritual

Organizada pela comunidade católica Shalom, a missa natalina reuniu dezenas de pessoas na rua Floriano Peixoto

26/12/2018 01:30:00
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Não ter residência, por vezes, em nada se assemelha a não ter lar. As histórias de Valdir Marreiro, 31, e Fernando Martins, 54, dois dos 14 homens acolhidos pela Casa São Francisco, no Centro de Fortaleza, atestam que a condição de "morador de rua" vai além do déficit habitacional. Natural de Morrinhos, Valdir já tentou tocar a vida em pelo menos três cidades, tendo apoio em todas elas. Mesmo assim, faltava algo. Já Fernando desaprendeu o conceito de "lar" quando perdeu mãe, pai e irmão, a única família que conhecia. Faltava algo.

[SAIBAMAIS]

A carência de um lar e a fé abalada, comum aos dois homens que recorreram à Casa São Francisco, motivou que eles fizessem parte da plateia que assistiu atenta à missa na rua Floriano Peixoto ao fim da tarde do último 24 de dezembro, véspera de Natal. "Eles (os acolhidos pela Casa) são cheios de feridas da alma. Às vezes, até num olhar, pensam que você está agredindo, humilhando", comentou o coordenador do abrigo, Paulo Roberto Lopes.

 

Por isso, a celebração natalina que reuniu integrantes da comunidade católica Shalom, homens abrigados na Casa São Francisco e moradores de rua que decidiram, na hora, se juntar ao ato litúrgico, reforçou a necessidade de perpetuar o amor ensinado por Jesus Cristo integrando todos os fiéis num momento de oração partilhada.

 

Na missa, dom Rosalvo Cordeiro, bispo auxiliar da arquidiocese de Fortaleza, narrou sobre as origens do filho de Deus, explicou o papel que ele teve como "salvador" da humanidade e agradeceu ao trabalho da comunidade Shalom no acolhimento daqueles que não têm lar, "que necessitam de carinho, de cuidado e de serem reconhecidos em sua dignidade".

 

Valdir, no próximo dia 28, completa três meses de estadia na Casa São Francisco. Período em que ele afirma ter conseguido se reconectar à própria espiritualidade depois de anos de turbulência emocional. "Abandonei tudo. Não acreditava mais em Deus", lembrou. "Quando cheguei aqui foi que comecei a entender o que eu buscava. Descobri várias misérias. Quando cheguei, tava morto espiritualmente. Hoje, tô de pé. Não digo que tô preparado pra enfrentar (a vida fora do abrigo)? mas, aqui, encontrei ferramentas", sustentou.

 

Menos consciente, visto que há apenas uma semana está sob os cuidados e orientações da Casa São Francisco, Fernando trava uma batalha pessoal contra a bebida alcóolica. "Perdi minha família", repetia durante a entrevista ao O POVO. Ele contou que, anteriormente, já havia sido resgatado por um integrante do Shalom que o levou para outra unidade de acolhimento da comunidade. No entanto, depois da estadia, por não ter mais para onde ir, retornou às ruas da Capital e sucumbiu novamente ao álcool.

 

Fernando foi um dos homens em situação de rua que subiram ao altar da missa campal na segunda-feira para ler, no melhor ritmo possível, devido à falta de hábito, as preces de seus companheiros. "Senhor Jesus Cristo, abençoai nós. Olhais de maneira especial para as pessoas que não têm o que comer e onde morar", pediu ao microfone.

 

Casa

 

A Casa São Francisco, no Centro de Fortaleza, é coordenada pela comunidade católica Shalom. Tem capacidade para abrigar 20 pessoas por até três meses e oferece quatro alimentações diárias.

Luana Severo

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