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Um mês após estupro no Cepis, inquérito é concluído e criança segue sem assistência

Vítima é atendida por psicóloga da escola municipal em que estuda. Caso corre em segredo de Justiça

01:30 | 13/11/2018

Vestida de rosa, com uma princesa da Disney a lhe estampar a blusa, a menina de 11 anos enxuga as lágrimas, cabisbaixa. Ao lado, a mãe repete o mesmo gesto. A criança fala sobre a vida que mudou de um mês para cá e como queria o que tinha de volta. "Tem sido difícil. Eu só queria que tudo voltasse ao normal", fala baixinho, sem mirar quem a olha.

Ela perdeu as amigas, que se distanciaram na escola e na rua de casa e há um mês não vê o pai. A diversão de fim de tarde na pracinha perto de casa foi substituída por um brincadeira calada, dentro do quarto que divide com as irmãs. No dia 13 de outubro, dia posterior ao Dia das Crianças, ela visitava o pai detido no Centro de Execução Penal e Integração Social Vasco Damasceno Weyne (Cepis), em Itaitinga, quando foi estuprada. O suspeito é o detento Márcio da Silva Costa. O inquérito policial foi concluído e remetido ao Poder Judiciário, onde segue sob segredo.

A menina cursa o 4º ano do ensino fundamental em escola municipal na Região Metropolitana de Fortaleza, e é de lá que tem recebido a única assistência psicológica. "Toda semana, às quartas-feiras, ela conversa sozinha com a psicóloga. Fora isso, 15 dias depois vieram duas mulheres da Sejus (Secretaria da Justiça) aqui em casa. E nada mais", relata a mãe. Ela conta ainda que três homens foram até a casa da família e, sem identificar de que órgão seriam, fizeram perguntas sobre o exame de corpo de delito que constrangeram mãe e filha.

Entre as dores que tem tentado superar, a mulher de 35 anos, que tem outros cinco filhos, fala da culpa que querem lhe imputar e dos comentários sobre o marido preso. "Ele cumpre pena por furto e assalto, mas disseram que ele é estuprador. Ele não é. Desde que disseram isso, a mãe dele está acamada em depressão".

No momento do estupro, a menina encomendava com o suspeito do crime uma caixinha de artesanato para entregar à professora, pelo Dia dos Professores. As duas irmãs mais novas fizeram o mesmo, minutos antes, na presença do pai, que saiu com as duas filhas. A mãe, como é recomendado pelo código dos presos - para evitar que um detento "se engrace" para esposa de outro -, estava na cela aguardando os quatro que haviam saído há poucos instantes.

"Ela chegou muito assustada, me disse que não queria mais voltar pra ver o pai ali. Eu perguntei o porquê. Foi quando ela me contou", relembra a mãe. A menina conseguiu se livrar do homem com arranhões e beliscões. Ao relatar o ocorrido aos agentes, a mulher ainda conta que foi até a delegacia na mesma viatura do suspeito ? ela e a filha no banco de trás, e ele no camburão.

"Víamos ele pelas câmeras, ele batia com a cabeça na porta. Ela se abraçava em mim e chorava".

A mulher voltou ao presídio outras duas vezes. Em uma delas, afirma ter sido coagida a assinar uma declaração que isentaria os agentes caso ela sofresse alguma violência. As filhas não voltaram ao Cepis. "E nem voltarão, nem mesmo agora que vai ser em um ginásio (o sistema de visitas das crianças está passando por mudanças). Ele (o marido) pediu pra não levá-las. Elas não querem ir também. Mas elas sentem falta do pai. Eu só queria mesmo que o estuprador pagasse por essa maldade. Só queria Justiça".

Justiça

Advogado da família, Ricardo Maia, entrou com pedido para que o pai cumpra o restante da pena em prisão domiciliar.

DOMITILA ANDRADE