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Gêmeas cearenses deixam UTI; cicatrização será monitorada

Ysabelle e Ysadora passaram por separação do topo dos crânios, procedimento inédito no Brasil, e, dez dias depois, estão na enfermaria de hospital

01:30 | 08/11/2018

Separação das gêmeas foi concluída no dia 28 de outubro (Foto: Reprodução/ Facebook)
Separação das gêmeas foi concluída no dia 28 de outubro (Foto: Reprodução/ Facebook)
Uma recuperação exemplar, sem sobressaltos, surpresas ou retrocessos. Assim segue o pós-operatório de Maria Ysabelle e Maria Ysadora, que já estão na enfermaria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto. Dez dias após passarem por uma das cirurgias mais complicadas já feitas no mundo, as meninas estão com total estabilidade de suas funções vitais.

Fora da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) desde ontem, as gêmeas cearenses começam a receber todos os estímulos que poderão fazê-las andar, falar mais e se desenvolver como qualquer criança de dois anos. A atenção às irmãs que nasceram com os crânios e parte do cérebro ligados, agora, tem foco em cicatrização e funções neurológicas.

"Desde o terceiro dia após a cirurgia que elas estão se alimentando pela mamadeira. Isso quer dizer que o cérebro está funcionando. Elas estão mexendo tudo, todos os membros", afirma o neurocirurgião Eduardo Jucá. 

Essa conquista de funções neurológicas virá aos poucos, já havia adiantado o médico mesmo antes da quarta e última cirurgia de separação, no dia 28 de outubro. "É impossível prever, porque existe um conceito de neuroplasticidade: quando uma área do cérebro é afetada, outra pode assumir sua função. Nas crianças isso é ainda mais evidente", complementa.

Sem fios ou aparelhos que precisam monitorar cada respiração, a circulação sanguínea, os batimentos cardíacos e o uso minucioso de antibióticos, o acompanhamento por fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos será mais intenso. "Só se deixa um paciente sair da UTI quando se tem confiança que ele pode ter suas funções vitais sem suporte intensivo. Agora começa o processo de reabilitação".

Os cuidados mais específicos, conforme Jucá, são com a troca diária de curativos. "É uma área extensa. Antes da cirurgia, a cobertura do crânio de uma criança era a da outra criança. Na separação, elas ficaram sem essa cobertura. Ou seja, a pele que está recobrindo o topo da cabeça não era originalmente daquele local", detalha.

A saída do hospital e uma possível vinda para o Ceará ? a família é do distrito de Patacas, em Aquiraz ? continuam sem dias marcados. "Essa história de prazo indefinido está ótimo, porque elas estão reagindo cada vez melhor", pondera Jucá.

A previsão era de que as duas irmãs ainda precisassem passar por mais um procedimento cirúrgico. O enxerto de pele da coxa para a região da nuca, de onde foi retirado um pedaço de pele para recobrir o espaço do crânio que era ligado. De acordo com o cirurgião plástico Jayme Farina, apenas Ysabelle fará a cirurgia. "Na Ysadora, não ficou ferida aberta na nuca. O pedaço de pele foi grande o suficiente para fechar o formato da cabeça dela". O enxerto (de 10x6 cm) em Ysabelle será feito no dia 22.

Histórico das meninas 

> Maria Ysadora e Maria Ysabelle, 2 anos e sete meses, são naturais de Patacas, distrito de Aquiraz (Região Metropolitana de Fortaleza). Elas nasceram gêmeas siamesas craniópagas (ligadas pelo topo do crânio). Isso acontece uma vez em cada 2,5 milhões de nascimentos. Os primeiros atendimentos foram no Hospital Albert Sabin, em Fortaleza, pelo neurocirurgião Eduardo Jucá.

> Foram, então, encaminhadas ao Hospital das Clínicas da USP, em Ribeirão Preto (SP). Residem com os pais na cidade paulista desde o início de 2018, quando começou a série de procedimentos cirúrgicos para separar os crânios.

> Primeiro procedimento do tipo no Brasil, o processo de separação foi orientado por um dos médicos mais experientes neste tipo de cirurgia no mundo: o neurocirurgião James Goodrich, do Montefiore Medical Center, de Nova York.

> As três primeiras cirurgias aconteceram em fevereiro, maio e agosto. Uma cirurgia plástica para colocação de expansores de pele também ocorreu. O procedimento que concluiu a separação, no dia 28 de outubro, durou 22 horas e envolveu mais de 30 profissionais.

SARA OLIVEIRA